Parecia um dia como outro qualquer, mas ao mesmo tempo era um dia sem igual.
Prodigal, antes de seguir em frente, lembrando-se dos ensinamentos de seu senhor, Lord Drago, pegou o Livro do Destino arremessando ao ar os sete dados, e o resultado caído ao chão remeteu sua leitura à outra curiosa citação latina:
- Transvolat in medio posita, et fugientia captat. [Horácio, Sermones 1.1.108] (Deixa para trás o que está no seu caminho e persegue o que lhe foge.)
De posse da espada do cavaleiro do dragão, pela primeira vez percebeu que entre a lâmina e o punho da mesma havia uma pequena bola de cristal, e naquele instante, como um relâmpago, lembrou-se do estranho ritual que seu senhor fazia a cada viagem, virando a espada ao contrário, na forma de uma cruz, e colocando a testa próxima aquele local. Recordou-se ainda que Lord Drago lhe dissera um dia que toda vez que o cavaleiro estivesse em dúvida sobre o caminho a seguir, deveria dar razão ao “olho do dragão”.
Naquele dia, Prodigal que era tão-somente a sombra fiel do cavaleiro do dragão, não entendera nada do que seu amo lhe falava. Agora, como que iluminado pelo relâmpago interior, o jovem repetiu o gesto do homem que lhe dera abrigo e proteção.
Quando o menino do lago, agora travestido de cavaleiro do dragão, espiou no interior da pequena e azulada bola de cristal da espada de seu Senhor, viu que por entre as centenas de árvores do Bosque Sem Fim à sua frente, uma pequena passagem secreta estava iluminada por uma misteriosa luz.
...
Parte da história continuará AQUI.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
O "velho moço" e a garrafa quase vazia
Prodigal, cansado da viagem e com fome, decide descer do cavalo.
Como Serena continuava a observá-lo de dentro da casa, o jovem retira o elmo, joga ao chão o escudo e a lança, além da espada. Desarmado, ouve a porta da casa se abrir aos poucos... Lá de dentro sai uma bela mulher de cabelos dourados e olhos brilhantes.
Prodigal, que sempre foi um jovem de poucas palavras - ainda que em seu interior corresse um rio de ideias e sonhos -, não sabia o que dizer a mulher. Nem sabia se ela o entenderia. As mulheres daquele reino de estranhos não conheciam sequer os nativos com quem conviviam, quanto mais os viajantes, que vez por outra ali apareciam.
Por baixo da armadura, o jovem usava sua roupa de serviçal, e assim ficou, para descansar do peso e deixar a alma não tão pesada e dura, escondendo aquele fardo a ele imposto pelo destino, dentro do oco de uma árvore ao lado da casa da mulher encantadora. Sabia que de dia corria perigo, mas a noite, a escuridão era sua inseparável companheira. Seu rosto e corpo, longe do Lago Azul Profundo, envelheceram anos em pouco tempo...
O fiel escudeiro, agora feito Cavaleiro do Dragão Negro por força da fatalidade, pediu para provar daquele prato na janela esfriando. Serena compreendeu bem seus gestos e cortou grossa fatia para o viajante de cabelos grisalhos. Sua fama precedia seus passos naquele reino. Ela, como a maioria da plebe, sabia de suas andanças, aumentadas pelo clero e pela nobreza.
O homem sedento pediu a mulher água para se lavar. Ouvindo de imediato palavras que não soube traduzir. Parecia para ele grego, e de fato eram, um grego antigo:
- "ΝΙΨΟΝ ΑΝΟΜΗΜΑΤΑ ΜΗ ΜΟΝΑΝ ΟΨΙΝ." (Lava também teus pecados, e não só o rosto). Serena, a mulher de cabelo de fogo, como Sol, falava várias línguas, fruto de suas andanças (Insônia, a mulher do brilho de lua, mais o latim). Naquele reino muitas línguas eram faladas, mas poucos conseguiam se fazer entender.
Quando, após ela repetir pausadamente a frase, ele lembrou-se de um verso que seu Senhor, Lord Drago, sempre recitava, antes de ler o seu Livro do Destino: “Começar já é metade de toda ação”. De fato não era poema e sim um provérbio grego.
Mesmo ele não entendo nada, Serena, por linhas tortas, percebeu aquele desencontro e soube se fazer compreender na total incompreensão daquele tempo e reino. Aquela mulher que falara pela primeira vez em grego com ele, percebendo que Prodigal não a entendia, passou então a falar em latim, e ai estabeleceram uma cordial conversa até que a lua no céu começou a surgir entre os galhos das árvores do Bosque Sem Fim.
Prodigal tinha envelhecido um pouco na viagem e o cansaço fez que o mesmo adormecesse no alpendre da casa de Serena, sendo observado por ela, até que ruídos vindos do Bosque a afugentaram para dentro de casa.
- “Que aquele que ouve, desperte de seu pesado sono” - escrito no livro Apócrifo de João -, foi o que o soldado do castelo de Messiter disse a Prodigal, com uma lança encostada em seu peito, despertando-o de supetão.
- Quem são vocês?, perguntou o escudeiro, para sua sorte, sem a armadura e com as armas recolhidas por Serena.
- Nós é que fazemos as perguntas!, exclamou em tom irritado o chefe da guarda, continuando em tom áspero -, De onde vens e para onde vais? Cadê o Cavaleiro que as pegadas do cavalo negro trouxeram a ti? Diga-me logo velho louco, antes que minha espada faça você confessar!
- Velho? Eu? - disse Prodigal, espantado. Mas ao ver seu reflexo reluzindo na armadura dos soldados caiu em si! Sua aparência era realmente de alguém muito mais velho que ele mesmo conhecera.
- Claro! Você, seu velho louco! Por acaso te consideras um garoto? Esse é de fato um velho doido, não percamos tempo com ele, homens, sigamos as marcas que levam de volta para o Bosque Sem Fim.
Quando os soldados, após revistarem a casa de Serena e nada encontrarem nem mesmo a própria, partiram a galope. E o “velho moço”, sem ver sinais de Serena, pegou a velha garrafa, em seu poder e tomou um longo gole pra matar a secura que se fez dentro dele. Em seguida, continuou deitado ao chão por alguns momentos, recuperando-se do incrível cansaço que sobre ele pairou! Quando de repente um soldado retornou para averiguar a situação e supreendeu-se com o que viu.
- Ei, garoto! Onde está o velho louco que acabamos de deixar aqui? É seu parente?
Numa incrível rapidez de raciocínio, o escudeiro disse que sim, que era seu pai, e que tinha também entrado no Bosque e deveria estar perdido, pois de fato era um louco.
- Você é muito parecido com ele mesmo! Incrível semelhança, apesar da diferença de idade. E dito isso, o soldado de espada em punho virou-se e desapareceu em seguida dentro do Bosque...
Sem Serena, que desaparecera por encanto, e com a noite já cobrindo aquele local, Prodigal passou a entender melhor a magia d' O Lago Azul Profundo, que o fazia jovem próximo, e velho quando distante. Sorte a sua que ainda tinha mais alguns goles d'água da misteriosa garrafa, que armazenou por muito tempo o papiro contendo o Livro do Destino, que estava agora guardado no interior da armadura... O homem, despido dela era frágil; dentro dela sua alma era dura, sua coragem imensa, não tinha limites para o seu destemor.
Como Serena continuava a observá-lo de dentro da casa, o jovem retira o elmo, joga ao chão o escudo e a lança, além da espada. Desarmado, ouve a porta da casa se abrir aos poucos... Lá de dentro sai uma bela mulher de cabelos dourados e olhos brilhantes.
Prodigal, que sempre foi um jovem de poucas palavras - ainda que em seu interior corresse um rio de ideias e sonhos -, não sabia o que dizer a mulher. Nem sabia se ela o entenderia. As mulheres daquele reino de estranhos não conheciam sequer os nativos com quem conviviam, quanto mais os viajantes, que vez por outra ali apareciam.
Por baixo da armadura, o jovem usava sua roupa de serviçal, e assim ficou, para descansar do peso e deixar a alma não tão pesada e dura, escondendo aquele fardo a ele imposto pelo destino, dentro do oco de uma árvore ao lado da casa da mulher encantadora. Sabia que de dia corria perigo, mas a noite, a escuridão era sua inseparável companheira. Seu rosto e corpo, longe do Lago Azul Profundo, envelheceram anos em pouco tempo...
O fiel escudeiro, agora feito Cavaleiro do Dragão Negro por força da fatalidade, pediu para provar daquele prato na janela esfriando. Serena compreendeu bem seus gestos e cortou grossa fatia para o viajante de cabelos grisalhos. Sua fama precedia seus passos naquele reino. Ela, como a maioria da plebe, sabia de suas andanças, aumentadas pelo clero e pela nobreza.
O homem sedento pediu a mulher água para se lavar. Ouvindo de imediato palavras que não soube traduzir. Parecia para ele grego, e de fato eram, um grego antigo:
- "ΝΙΨΟΝ ΑΝΟΜΗΜΑΤΑ ΜΗ ΜΟΝΑΝ ΟΨΙΝ." (Lava também teus pecados, e não só o rosto). Serena, a mulher de cabelo de fogo, como Sol, falava várias línguas, fruto de suas andanças (Insônia, a mulher do brilho de lua, mais o latim). Naquele reino muitas línguas eram faladas, mas poucos conseguiam se fazer entender.
Quando, após ela repetir pausadamente a frase, ele lembrou-se de um verso que seu Senhor, Lord Drago, sempre recitava, antes de ler o seu Livro do Destino: “Começar já é metade de toda ação”. De fato não era poema e sim um provérbio grego.
Mesmo ele não entendo nada, Serena, por linhas tortas, percebeu aquele desencontro e soube se fazer compreender na total incompreensão daquele tempo e reino. Aquela mulher que falara pela primeira vez em grego com ele, percebendo que Prodigal não a entendia, passou então a falar em latim, e ai estabeleceram uma cordial conversa até que a lua no céu começou a surgir entre os galhos das árvores do Bosque Sem Fim.
Prodigal tinha envelhecido um pouco na viagem e o cansaço fez que o mesmo adormecesse no alpendre da casa de Serena, sendo observado por ela, até que ruídos vindos do Bosque a afugentaram para dentro de casa.
- “Que aquele que ouve, desperte de seu pesado sono” - escrito no livro Apócrifo de João -, foi o que o soldado do castelo de Messiter disse a Prodigal, com uma lança encostada em seu peito, despertando-o de supetão.
- Quem são vocês?, perguntou o escudeiro, para sua sorte, sem a armadura e com as armas recolhidas por Serena.
- Nós é que fazemos as perguntas!, exclamou em tom irritado o chefe da guarda, continuando em tom áspero -, De onde vens e para onde vais? Cadê o Cavaleiro que as pegadas do cavalo negro trouxeram a ti? Diga-me logo velho louco, antes que minha espada faça você confessar!
- Velho? Eu? - disse Prodigal, espantado. Mas ao ver seu reflexo reluzindo na armadura dos soldados caiu em si! Sua aparência era realmente de alguém muito mais velho que ele mesmo conhecera.
- Claro! Você, seu velho louco! Por acaso te consideras um garoto? Esse é de fato um velho doido, não percamos tempo com ele, homens, sigamos as marcas que levam de volta para o Bosque Sem Fim.
Quando os soldados, após revistarem a casa de Serena e nada encontrarem nem mesmo a própria, partiram a galope. E o “velho moço”, sem ver sinais de Serena, pegou a velha garrafa, em seu poder e tomou um longo gole pra matar a secura que se fez dentro dele. Em seguida, continuou deitado ao chão por alguns momentos, recuperando-se do incrível cansaço que sobre ele pairou! Quando de repente um soldado retornou para averiguar a situação e supreendeu-se com o que viu.
- Ei, garoto! Onde está o velho louco que acabamos de deixar aqui? É seu parente?
Numa incrível rapidez de raciocínio, o escudeiro disse que sim, que era seu pai, e que tinha também entrado no Bosque e deveria estar perdido, pois de fato era um louco.
- Você é muito parecido com ele mesmo! Incrível semelhança, apesar da diferença de idade. E dito isso, o soldado de espada em punho virou-se e desapareceu em seguida dentro do Bosque...
Sem Serena, que desaparecera por encanto, e com a noite já cobrindo aquele local, Prodigal passou a entender melhor a magia d' O Lago Azul Profundo, que o fazia jovem próximo, e velho quando distante. Sorte a sua que ainda tinha mais alguns goles d'água da misteriosa garrafa, que armazenou por muito tempo o papiro contendo o Livro do Destino, que estava agora guardado no interior da armadura... O homem, despido dela era frágil; dentro dela sua alma era dura, sua coragem imensa, não tinha limites para o seu destemor.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
A magia de Sidelar
Após procurar durante muito tempo o último ingrediente que faltava à sua magia, uma porção de gosma quântica, o Mago Sidelar finalmente preparava-se para realização de seu experimento para localizar a Bola de Cristal roubada de seu laboratório. Neste momento, apenas aguardava as 22 badaladas do Castelo de Messiter naquele Reino de Estranhos, apesar de estar muito preocupado com o sumiço de sua preciosa bola, havia algo que ele achava estranho por aquelas bandas do castelo, pois os guardas haviam procurado por todo o Reino, e ainda havia uma boa recompensa para quem a entregasse, desta forma, sua intuição batia-lhe o medo de que seu segredo e poder fosse revelado.
22 badaladas... e ele começara sua magia...
Em seu laboratório, em um caldeirão de barro, depositava os ingredientes na seguinte ordem: um punhado de escamas de serpente, dois punhados de casca de cinamon, um punhado de folhas de violetas selvagens, duas pedras de breu, sete gotas de água do mar e por último a porção de gosma quântica - durante este ritual processava em tom agressivo as seguintes palavras:
- Reis dos Reis! Senhor dos Senhores! Espectro inverso que revela aos cultos a riqueza perdida... Agnus... Primmus...
Repetiu tais palavras muitas e muitas vezes, ocorrendo uma explosão e a aparição em meio a fumaça de sua Bola de Cristal em uma mão jovem que a ostentava em frente ao mar e as duas luas no céu a iluminavam. Assim, não conseguira ver quem estava com sua bola, nem o local exato de onde ela se encontrava, apenas soube que estava perto do mar.
No dia seguinte, ordenou que os soldados invadissem as casas que ficavam perto do mar na esperança de encontrar a bola, mas foi totalmente em vão, os soldados nada encontraram. Frustrado e preocupado com a situação, sentiu-se acuado e de vasto pensamento, não lhe restava outra alternativa senão procurar seu grã-mestre, mas a única maneira de invocá-lo era através de forças malignas o que punha em jogo sua existência, então resolveu esperar por um tempo, e refletir se tal invocação lhe seria cabível, visto que, até o presente momento, nada de mal lhe acontecera com o sumiço de sua Bola de Cristal.
22 badaladas... e ele começara sua magia...
Em seu laboratório, em um caldeirão de barro, depositava os ingredientes na seguinte ordem: um punhado de escamas de serpente, dois punhados de casca de cinamon, um punhado de folhas de violetas selvagens, duas pedras de breu, sete gotas de água do mar e por último a porção de gosma quântica - durante este ritual processava em tom agressivo as seguintes palavras:
- Reis dos Reis! Senhor dos Senhores! Espectro inverso que revela aos cultos a riqueza perdida... Agnus... Primmus...
Repetiu tais palavras muitas e muitas vezes, ocorrendo uma explosão e a aparição em meio a fumaça de sua Bola de Cristal em uma mão jovem que a ostentava em frente ao mar e as duas luas no céu a iluminavam. Assim, não conseguira ver quem estava com sua bola, nem o local exato de onde ela se encontrava, apenas soube que estava perto do mar.
No dia seguinte, ordenou que os soldados invadissem as casas que ficavam perto do mar na esperança de encontrar a bola, mas foi totalmente em vão, os soldados nada encontraram. Frustrado e preocupado com a situação, sentiu-se acuado e de vasto pensamento, não lhe restava outra alternativa senão procurar seu grã-mestre, mas a única maneira de invocá-lo era através de forças malignas o que punha em jogo sua existência, então resolveu esperar por um tempo, e refletir se tal invocação lhe seria cabível, visto que, até o presente momento, nada de mal lhe acontecera com o sumiço de sua Bola de Cristal.
domingo, 30 de novembro de 2008
O grande vidro e a pequena vida
Serena vivia solitária naquele local, em que o tempo parecia estar contido em uma imensa bola de cristal, como que prisioneira da própria vida, até a chegada de Prodigal... Quando o jovem ali chegou, levemente envelhecido, desde que se afastara do lago azul profundo, o sol intenso viajara com ele, por entre as árvores do bosque, até subir ao meio do céu... A visão do cavaleiro pelos aldeões, durante aquela jornada, criou o mito de sua imortalidade, já que cada escudeiro sempre assumia as vestes de seu senhor, quando de sua morte. Assim, a fama do Dragão Negro correu por toda região, junto com sua andança até chegar ao outro lado do bosque Sem Fim. Ali, sentira a sensação de que deveria ficar algum tempo mais, antes de seguir adiante. Precisava descansar, sentia muita fome e solidão.
Serena observava com receio aquele desconhecido. Tudo que a jovem aprendera na vida ─ e todos os segredos para sobreviver num mundo de estranhos ─, trazia consigo no Livro dos Desejos (ali estavam contidas também suas receitas mágicas). Tudo que sabia aprendera com a sua mãe, que passara o segredo recebido de sua avó, e assim por diante. Serena compilou no livro aquelas receitas de vida, fruto de um conhecimento milenar, restrito às mulheres do clã, pois cabia aos homens apenas guerrear e procriar. Estes eram céticos quanto aos encantos das mulheres e seus manjares. Satisfaziam-se apenas em suprir seus instintos, encher a barriga, e depois ruminar, virados pro lado... Não notavam que os pratos fortaleciam seus braços e pernas a cada véspera de batalha. Viviam como ursos, com muita força bruta e nada mais.
Naqueles tempos sombrios, as mulheres acompanhavam as fases da lua, e seus ciclos de 28 dias... Aos 16 anos de vida eram mães e aos 32, avós. E a cada mudança da Lua Prateada no céu cinzento, de minguante para crescente, de cheia para nova, algo acontecia no local onde elas estavam, tendo que partir ou se esconder até o efeito passar... Aquelas mulheres possuíam uma língua secreta, e o que falavam nenhum homem entendia. Tudo sempre subentendido, nas entrelinhas do tempo, nos olhares sem que a boca se movimentasse. Mas os “ursos”, “não queriam dar o braço a torcer”, nem confessar que não entendiam suas esposas, irmãs, filhas... Os guerreiros sabiam apenas manejar com destreza escudo e espada, mas o coração parecia de chumbo fundido. Exceto um deles, que não era daquele reino, e que fora o fiel escudeiro de um cavaleiro, herdando de seu Senhor e Mestre, além dos trajes, o próprio nome, já que tinha incrível semelhança com o nobre, que lhe criara como um pai. A convivência os deixara parecidos demais... O menino do lago não conhecia o verdadeiro pai e fora criado por duas mulheres, antes de seguir os passos de Lord Drago: Sua mãe Vida (que morrera de desgosto, sem contar o nome de seu progenitor) e sua tia Alma (que enlouquecera, também guardando pra si o perverso segredo).
Ao passar a usar roupas e nome do seu Senhor, depois de sua morte, o jovem escudeiro, sem querer, criou naquele reino a lenda do Cavaleiro Imortal, que jamais envelhecia, e que vivia de léguas em léguas a lutar por causas perdidas. Os soldados do reino, que o viram tombar na noite anterior, diante do castelo de Messiter, não encontraram seus restos mortais. A lenda assim foi tomando novo corpo...
Um dia, Prodigal sabia-o bem ─ travestido de Lord Drago e ainda sem escudeiro ─, teria que ir às redondezas do castelo, pois lá dizia o Livro do Destino, em seu poder, vivia a bela princesa Cristal, que possuía o Livro dos Sonhos. Lord Drago tinha deixado pistas de que cabia a Irmandade do Vento zelar pela preservação desse e doutros livros mágicos (Do Destino; Dos Dias...), contra a ânsia de poder da Ordem do Tempo e do Colecionador.
Quando o rapaz contornou o estranho rio que margeava o ainda mais estranho bosque, trazido pelo aroma desconhecido e sedutor, mal sabia que fora conduzido ali pelo perfume do tortei encantado. Estava ele diante da pequena casa com a janela aberta e um prato a esfriar, quando uma silhueta em seu interior parecia encará-lo com temor. Um estrondo vindo do nada, amedrontou a ambos. Logo, Prodigal percebera que era nada mais nada menos que seu estômago roncando de fome...
Serena segurava nas mãos um cajado. O cavaleiro pensou no início ser alucinação, tal a beleza da mulher, que aparentava se aproximar dos dezesseis anos, e que era tida como bruxa para uns e a fada para outros. Santo de casa realmente não fazia milagres naquele local. Mas para ele, um Cavaleiro do Vento, aquela imagem saída das sombras era mais do que uma Aparição. De imediato sentiu o peito ser transpassado como se por uma espada mágica. A mulher, que pressentia às coisas e tinha curiosas visões, sonhara na noite anterior com um escudo reluzente em forma de lua prateada, com a misteriosa inscrição Nessun Dorma...
O tempo que se arrastará até aquele local, de repente voou que nem um falcão negro atrás de uma pomba branca no céu azul profundo. Um vácuo cobriu a região e o silêncio pousou entre os dois, além de densas nuvens. Serena vendo o olhar aflito do cavaleiro, largou o cajado, oferecendo um pedaço de seu manjar ao faminto, que por conta dessa gentileza também se desarmou. Antes que a noite de Lua Nova se aproximasse, tanto Serena como Prodigal seriam reféns do olhar um do outro. E não dormiriam com medo de ao acordar tudo não passasse de um sonho, como o tortei encantado...
Serena observava com receio aquele desconhecido. Tudo que a jovem aprendera na vida ─ e todos os segredos para sobreviver num mundo de estranhos ─, trazia consigo no Livro dos Desejos (ali estavam contidas também suas receitas mágicas). Tudo que sabia aprendera com a sua mãe, que passara o segredo recebido de sua avó, e assim por diante. Serena compilou no livro aquelas receitas de vida, fruto de um conhecimento milenar, restrito às mulheres do clã, pois cabia aos homens apenas guerrear e procriar. Estes eram céticos quanto aos encantos das mulheres e seus manjares. Satisfaziam-se apenas em suprir seus instintos, encher a barriga, e depois ruminar, virados pro lado... Não notavam que os pratos fortaleciam seus braços e pernas a cada véspera de batalha. Viviam como ursos, com muita força bruta e nada mais.
Naqueles tempos sombrios, as mulheres acompanhavam as fases da lua, e seus ciclos de 28 dias... Aos 16 anos de vida eram mães e aos 32, avós. E a cada mudança da Lua Prateada no céu cinzento, de minguante para crescente, de cheia para nova, algo acontecia no local onde elas estavam, tendo que partir ou se esconder até o efeito passar... Aquelas mulheres possuíam uma língua secreta, e o que falavam nenhum homem entendia. Tudo sempre subentendido, nas entrelinhas do tempo, nos olhares sem que a boca se movimentasse. Mas os “ursos”, “não queriam dar o braço a torcer”, nem confessar que não entendiam suas esposas, irmãs, filhas... Os guerreiros sabiam apenas manejar com destreza escudo e espada, mas o coração parecia de chumbo fundido. Exceto um deles, que não era daquele reino, e que fora o fiel escudeiro de um cavaleiro, herdando de seu Senhor e Mestre, além dos trajes, o próprio nome, já que tinha incrível semelhança com o nobre, que lhe criara como um pai. A convivência os deixara parecidos demais... O menino do lago não conhecia o verdadeiro pai e fora criado por duas mulheres, antes de seguir os passos de Lord Drago: Sua mãe Vida (que morrera de desgosto, sem contar o nome de seu progenitor) e sua tia Alma (que enlouquecera, também guardando pra si o perverso segredo).
Ao passar a usar roupas e nome do seu Senhor, depois de sua morte, o jovem escudeiro, sem querer, criou naquele reino a lenda do Cavaleiro Imortal, que jamais envelhecia, e que vivia de léguas em léguas a lutar por causas perdidas. Os soldados do reino, que o viram tombar na noite anterior, diante do castelo de Messiter, não encontraram seus restos mortais. A lenda assim foi tomando novo corpo...
Um dia, Prodigal sabia-o bem ─ travestido de Lord Drago e ainda sem escudeiro ─, teria que ir às redondezas do castelo, pois lá dizia o Livro do Destino, em seu poder, vivia a bela princesa Cristal, que possuía o Livro dos Sonhos. Lord Drago tinha deixado pistas de que cabia a Irmandade do Vento zelar pela preservação desse e doutros livros mágicos (Do Destino; Dos Dias...), contra a ânsia de poder da Ordem do Tempo e do Colecionador.
Quando o rapaz contornou o estranho rio que margeava o ainda mais estranho bosque, trazido pelo aroma desconhecido e sedutor, mal sabia que fora conduzido ali pelo perfume do tortei encantado. Estava ele diante da pequena casa com a janela aberta e um prato a esfriar, quando uma silhueta em seu interior parecia encará-lo com temor. Um estrondo vindo do nada, amedrontou a ambos. Logo, Prodigal percebera que era nada mais nada menos que seu estômago roncando de fome...
Serena segurava nas mãos um cajado. O cavaleiro pensou no início ser alucinação, tal a beleza da mulher, que aparentava se aproximar dos dezesseis anos, e que era tida como bruxa para uns e a fada para outros. Santo de casa realmente não fazia milagres naquele local. Mas para ele, um Cavaleiro do Vento, aquela imagem saída das sombras era mais do que uma Aparição. De imediato sentiu o peito ser transpassado como se por uma espada mágica. A mulher, que pressentia às coisas e tinha curiosas visões, sonhara na noite anterior com um escudo reluzente em forma de lua prateada, com a misteriosa inscrição Nessun Dorma...
O tempo que se arrastará até aquele local, de repente voou que nem um falcão negro atrás de uma pomba branca no céu azul profundo. Um vácuo cobriu a região e o silêncio pousou entre os dois, além de densas nuvens. Serena vendo o olhar aflito do cavaleiro, largou o cajado, oferecendo um pedaço de seu manjar ao faminto, que por conta dessa gentileza também se desarmou. Antes que a noite de Lua Nova se aproximasse, tanto Serena como Prodigal seriam reféns do olhar um do outro. E não dormiriam com medo de ao acordar tudo não passasse de um sonho, como o tortei encantado...
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
O Grande Sonho
Cristal passara os dias em seu quarto, sua ama astuta e perspicaz lhe cuidara e fazia-lhe todas as vontades, em meio a um devaneio, Cristal acorda agitada e grita pavorosamente:
- Meus olhos?
A ama corre e a pergunta o que houvera, ela respondeu-lhe:
- Sonhei com um homem malvado, mas não via-lhe o rosto, apenas a barba, era comprida e alva, usava um manto e roubara meus olhos. O mais fantástico é que eu enxergara tudo no sonho, e sabia tudo o que vira. Ele me disse que jamais devolvera-me o olhar, por culpa de meu pai que havia lhe roubado algo que não quis me dizer. Será? Ama! Será que isto foi apenas um sonho?
A ama não lhe respondeu nada, apenas grunhiu um “uhum” como sinal de concordância com o que a princesa havia pensado.
Cristal acalmou-se, mas pensara sem parar em seu sonho, seria apenas um sonho, ou seria um aviso, uma resposta, um enigma, um sinal inconsciente que haviam lhe enviado, estava apreensiva, e disposta a saber o que realmente havia lhe acontecido para não poder ver o mundo, para viver apenas de sensações, que mal haviam lhe cometido. Embora soubesse que já nascera assim, pelo menos foi o que seu pai lhe dissera quando despontou-lhe a curiosidade de sua deficiência, enfim, encontrava-se em desespero, e ao mesmo tempo esperançosa em um dia poder enxergar tudo que lhe cerca, tudo que sonhava e ter um príncipe que a mereça.
A dúvida ficara no ar e Cristal quando chegou a noite, ditou mais um poema a seu escriba:
O Grande Sonho
Sonho, sonho horrores,
Sonhos dolorosos, latentes e majestosos.
Sonhos de uma fada, com perfume de flor,
Sonho de uma luz, um brilho, o Sonho,
Imenso, grandioso e eloqüente.
Que se torna fascinante, em um grito,
De horror, desmerecido, a Culpa,
E raiva, vingança e tormento.
Quero ver, Ver a lua, Ver o sol,
Ver! Ver! Ver...
Saber...
Se é Sonho, se é Vida!
- Meus olhos?
A ama corre e a pergunta o que houvera, ela respondeu-lhe:
- Sonhei com um homem malvado, mas não via-lhe o rosto, apenas a barba, era comprida e alva, usava um manto e roubara meus olhos. O mais fantástico é que eu enxergara tudo no sonho, e sabia tudo o que vira. Ele me disse que jamais devolvera-me o olhar, por culpa de meu pai que havia lhe roubado algo que não quis me dizer. Será? Ama! Será que isto foi apenas um sonho?
A ama não lhe respondeu nada, apenas grunhiu um “uhum” como sinal de concordância com o que a princesa havia pensado.
Cristal acalmou-se, mas pensara sem parar em seu sonho, seria apenas um sonho, ou seria um aviso, uma resposta, um enigma, um sinal inconsciente que haviam lhe enviado, estava apreensiva, e disposta a saber o que realmente havia lhe acontecido para não poder ver o mundo, para viver apenas de sensações, que mal haviam lhe cometido. Embora soubesse que já nascera assim, pelo menos foi o que seu pai lhe dissera quando despontou-lhe a curiosidade de sua deficiência, enfim, encontrava-se em desespero, e ao mesmo tempo esperançosa em um dia poder enxergar tudo que lhe cerca, tudo que sonhava e ter um príncipe que a mereça.
A dúvida ficara no ar e Cristal quando chegou a noite, ditou mais um poema a seu escriba:
O Grande Sonho
Sonho, sonho horrores,
Sonhos dolorosos, latentes e majestosos.
Sonhos de uma fada, com perfume de flor,
Sonho de uma luz, um brilho, o Sonho,
Imenso, grandioso e eloqüente.
Que se torna fascinante, em um grito,
De horror, desmerecido, a Culpa,
E raiva, vingança e tormento.
Quero ver, Ver a lua, Ver o sol,
Ver! Ver! Ver...
Saber...
Se é Sonho, se é Vida!
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
O tortei encantado
Assam a massa... Assim era o último verso em forma de palíndromo de um novo e enigmático poema que trouxe o novo cavaleiro do dragão negro até o outro lado do bosque Sem Fim, contornando às densas árvores, algumas com estranhas formas de troncos que pareciam gente...
Próximo ao Reino de estranhos, havia uma aldeia de um povo novo, onde morava solitária uma mulher sem igual, chamada Serena, filha de Ísis, e tida pelos vizinhos como curandeira, e pelos sacerdotes mais conservadores, como bruxa, tal o encantamento que sua culinária, seus chás e seus olhos radiantes proporcionavam a quem merecesse tal distinção.
Remanescente da misteriosa seita da Lua Prateada, que quatro vezes por mês se reuniam, vindo de todas as partes daquele reino e d’outros mais distantes, com seus capotes pretos, cobrindo corpos e rostos, e cujas integrantes possuíam mil encantos e receitas mágicas, passadas de mãe para filha, de geração em geração. Para aquela seita, o universo fora gerado por uma Deusa, que também nasceu de um útero imenso e universal. Os últimos relatos que Serena tinha, da memória familiar, remontavam à construção das primeiras pirâmides no Deserto dos Sonhos, contudo sabia que o início de tudo que conhecia vagava trêmulo entre a mitologia e a história mitificada. Todo o conhecimento que tinha veio de relatos orais, de tempos em tempos, quando a filha menor, precisava atravessar o Mar Vermelho interior...
Daquele dia em diante, sob o brilho da Lua Prateada, imenso móbile bailando no céu, a mãe passava à filha, já mulher, suas receitas guardadas a sete chaves, do segredo do bem viver, quando começava a ensinar os primeiros ingredientes secretos e o seu modo de preparo, ainda na tenra idade. Um deles era curioso ritual do Tortei Encantado, que necessitava de uma moranga nova, espécie de abóbora, que deveria ser colhida sempre na noite de Lua Crescente, para que a receita e o encantamento prosperassem ao redor de seu mundo exterior... Moranga que necessitava ser cozida e esmagada, passada em farinha de rosca até dar a tal “liga”. Em seguida, colocado o açúcar, precisava de uma pitada de sal e noz moscada ao gosto. Para a feitura da massa era preciso ovos e farinha. Depois, uma galinha, ainda viva... E, a seguir, misturando a carne branca desfiada com tomate, cebola, pimentão e outras coisas mais, dependendo da ocasião. Por fim, levando tudo ao fogo brando, mexendo e remexendo até ficar bom...
O tempo e o espaço tornaram mãe e filha distantes, mas graças a essas receitas, as duas permaneciam com a mesma “liga”, o que tornava a farinha em massa saborosa. Ao fazer a receita familiar, conseguiam se comunicar e pressentir o perigo que uma passava a outra, e pela receita, equilibravam o ambiente familiar e a saudade, palavra que não existia em seu vocabulário, até as duas se separarem. Viviam perseguidas, de aldeia em aldeia, pois a população não entendia seus poderes extraídos da lua e seu jeito de ser tão natural. Imaginem só! Em tempos remotos, em que todos seguiam a risca seus papéis, portando-se como personagens de um jogo, mulher ter opinião e escolher o que deveria fazer! Uma blasfêmia para os sacerdotes, uma afronta aos reis, um escândalo até mesmo para as nobres e submissas mulheres da Corte, sombras pálidas de seus Senhores. Estas eram quase escravas, embora não usassem ferros, nem fossem chicoteadas, mas viviam presas a própria masmorra interior, como se numa bola de cristal imensa, feito as galinhas, que retidas por um simples círculo de giz, jamais atravessavam sua invisível prisão...
Serena era diferente de todas, e isso chocava a homens e mulheres da região, que não entendiam seu jeito de ser livre como a Lua Cheia no céu, por isso vivia reclusa, como medo de perseguição.
Dizia antiga lenda ─ passada de pai para filho ─, que aquele que provasse do tortei encantado, em noite de Lua Nova, tornava-se um novo homem, e que se tivesse o azar de ser em Lua Minguante, minguariam todos os seus sonhos e bens. Porém, quem experimentava do tortei encantado, poderia até esquecer quem era, mas jamais esqueceria aquele prato, seu tempero e sua criadora. Notícias de outros reinos davam conta de que alguns ficavam destemperados antes da hora, o que só lhes dava dissabor. Mas aos que tinham a paciência de esperar que o tortei ficasse no ponto, e que jamais contavam a alguém o segredo da receita mágica, a esse nobre cavaleiro poderia acontecer uma Revelação... Naquele tempo calamitoso, as mulheres criavam receitas de bem viver, e os homens histórias de faz-de-conta entre seus pares...
Quando Prodigal, montado em seu cavalo baio, chegou ao outro lado do bosque, encontrou uma pequena casa. Serena tinha terminado de assar a massa encantada, colocando-a na janela de sua casa rústica para esfriar. O sol se encontrava no meio do céu e os cabelos ruivos, cor de fogo, daquela mulher despertaram no cavaleiro chama crescente, sem igual...
Próximo ao Reino de estranhos, havia uma aldeia de um povo novo, onde morava solitária uma mulher sem igual, chamada Serena, filha de Ísis, e tida pelos vizinhos como curandeira, e pelos sacerdotes mais conservadores, como bruxa, tal o encantamento que sua culinária, seus chás e seus olhos radiantes proporcionavam a quem merecesse tal distinção.
Remanescente da misteriosa seita da Lua Prateada, que quatro vezes por mês se reuniam, vindo de todas as partes daquele reino e d’outros mais distantes, com seus capotes pretos, cobrindo corpos e rostos, e cujas integrantes possuíam mil encantos e receitas mágicas, passadas de mãe para filha, de geração em geração. Para aquela seita, o universo fora gerado por uma Deusa, que também nasceu de um útero imenso e universal. Os últimos relatos que Serena tinha, da memória familiar, remontavam à construção das primeiras pirâmides no Deserto dos Sonhos, contudo sabia que o início de tudo que conhecia vagava trêmulo entre a mitologia e a história mitificada. Todo o conhecimento que tinha veio de relatos orais, de tempos em tempos, quando a filha menor, precisava atravessar o Mar Vermelho interior...
Daquele dia em diante, sob o brilho da Lua Prateada, imenso móbile bailando no céu, a mãe passava à filha, já mulher, suas receitas guardadas a sete chaves, do segredo do bem viver, quando começava a ensinar os primeiros ingredientes secretos e o seu modo de preparo, ainda na tenra idade. Um deles era curioso ritual do Tortei Encantado, que necessitava de uma moranga nova, espécie de abóbora, que deveria ser colhida sempre na noite de Lua Crescente, para que a receita e o encantamento prosperassem ao redor de seu mundo exterior... Moranga que necessitava ser cozida e esmagada, passada em farinha de rosca até dar a tal “liga”. Em seguida, colocado o açúcar, precisava de uma pitada de sal e noz moscada ao gosto. Para a feitura da massa era preciso ovos e farinha. Depois, uma galinha, ainda viva... E, a seguir, misturando a carne branca desfiada com tomate, cebola, pimentão e outras coisas mais, dependendo da ocasião. Por fim, levando tudo ao fogo brando, mexendo e remexendo até ficar bom...
O tempo e o espaço tornaram mãe e filha distantes, mas graças a essas receitas, as duas permaneciam com a mesma “liga”, o que tornava a farinha em massa saborosa. Ao fazer a receita familiar, conseguiam se comunicar e pressentir o perigo que uma passava a outra, e pela receita, equilibravam o ambiente familiar e a saudade, palavra que não existia em seu vocabulário, até as duas se separarem. Viviam perseguidas, de aldeia em aldeia, pois a população não entendia seus poderes extraídos da lua e seu jeito de ser tão natural. Imaginem só! Em tempos remotos, em que todos seguiam a risca seus papéis, portando-se como personagens de um jogo, mulher ter opinião e escolher o que deveria fazer! Uma blasfêmia para os sacerdotes, uma afronta aos reis, um escândalo até mesmo para as nobres e submissas mulheres da Corte, sombras pálidas de seus Senhores. Estas eram quase escravas, embora não usassem ferros, nem fossem chicoteadas, mas viviam presas a própria masmorra interior, como se numa bola de cristal imensa, feito as galinhas, que retidas por um simples círculo de giz, jamais atravessavam sua invisível prisão...
Serena era diferente de todas, e isso chocava a homens e mulheres da região, que não entendiam seu jeito de ser livre como a Lua Cheia no céu, por isso vivia reclusa, como medo de perseguição.
Dizia antiga lenda ─ passada de pai para filho ─, que aquele que provasse do tortei encantado, em noite de Lua Nova, tornava-se um novo homem, e que se tivesse o azar de ser em Lua Minguante, minguariam todos os seus sonhos e bens. Porém, quem experimentava do tortei encantado, poderia até esquecer quem era, mas jamais esqueceria aquele prato, seu tempero e sua criadora. Notícias de outros reinos davam conta de que alguns ficavam destemperados antes da hora, o que só lhes dava dissabor. Mas aos que tinham a paciência de esperar que o tortei ficasse no ponto, e que jamais contavam a alguém o segredo da receita mágica, a esse nobre cavaleiro poderia acontecer uma Revelação... Naquele tempo calamitoso, as mulheres criavam receitas de bem viver, e os homens histórias de faz-de-conta entre seus pares...
Quando Prodigal, montado em seu cavalo baio, chegou ao outro lado do bosque, encontrou uma pequena casa. Serena tinha terminado de assar a massa encantada, colocando-a na janela de sua casa rústica para esfriar. O sol se encontrava no meio do céu e os cabelos ruivos, cor de fogo, daquela mulher despertaram no cavaleiro chama crescente, sem igual...
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Valeriano busca respostas
Para acabar de uma vez por todas com tanto mistério. Valeriano, aproveitando a mudança da lua, vestiu a longa capa negra e saiu decidido a colocar tudo em pratos limpos. Era uma noite fria e clara, o rapaz percorreu todo o caminho com passos longos e apressados. Após cansativa caminhada, finalmente chegou ao seu destino: a floresta.
Embora a lua iluminasse todo o vilarejo, na floresta tudo era muito escuro devido à grande quantidade de árvores que ali existia. Com medo e curiosidade seguiu. Continuando a caminhada entre a escuridão. Não sabia para onde ir, tudo era muito igual. Foi quando viu ao longe uma imensa claridade e seguiu até ela. Ao chegar mais perto verificou se tratar de uma imensa fogueira com algumas pessoas ao redor, elas estavam com seus braços erguidos, gritando frases em um dialeto não compreendido pelo jovem, pareciam exaltar algum deus ou coisa do tipo. Para sua surpresa, todos vestiam uma capa negra igual a sua. De repente silencio e alguém tomou a palavra:
- Amigos, há algum tempo estamos caminhando com nossas próprias pernas, visto que nosso mestre já cumpriu seu tempo nesta vida. Esta noite é especial, um dos nossos que ainda não se recorda de nosso grupo está perto. Chegou para tomar o papel de líder e assim como seu pai, honrar a natureza e utilizar seus poderes e encantos para acabar com o foco de distribuição do mal, desvendando a grande verdade e nos devolvendo nosso objeto mais estimado.
Valeriano escutava a tudo com atenção, pensava em quanto mistério envolvia aquele grupo. Havia algo de diferente no ar. Por mais loucura que tudo aquilo podia parecer, ele sentia uma estranha sensação de não ver tudo aquilo como novidade, parecia já ter vivido algo do tipo. Respirou fundo e foi em direção ao grupo. Foi quando aquele que falava ao grupo calou-se e ordenou que todos os demais reverenciassem Valeriano. Instantaneamente, todos retiraram os capuzes e ajoelharam-se perante Valeriano. Quando percebeu, ali estava o rapaz de uma vida triste e solitária, sob uma lua cheia, com sete pessoas ajoelhadas aos seus pés e o calor da fogueira a esquentar a face.
- Queiram me desculpar, mas o que está acontecendo? – Perguntou Valeriano. Minha vida se transformou em outra coisa de pouco tempo para cá. Agora um bando de loucos que usam uma capa igual a do meu pai dizendo que estou aqui para substituir o líder. Eu sou apenas mais um sobre essa terra, não faço diferença nenhuma. Preciso apenas cuidar direito da minha horta para não morrer de fome e assim são todos os meus dias. Nunca fiz o mal, sempre procurei agir corretamente como me ensinou meu finado pai. Por que isso? Qual o mistério por trás de tudo? Por favor, me respondam! Eu não agüento mais!
Após alguns minutos de silencio, a pessoa que estava discursando pouco tempo atrás e se parou na frente a Valeriano. Era uma mulher alta, cabelos negros e olhando dentro dos olhos do rapaz disse:
- É chegada a hora, Valeriano. Seu retorno ao nosso grupo é muito bem vindo. Feche os olhos e tente se lembrar dos fatos. Irei lhe contar tudo.
O rapaz, ainda que desconfiado, seguiu as orientações e fechou seus olhos. Foi quando a mulher começou a falar:
- Há três vidas passadas nosso grupo...
Embora a lua iluminasse todo o vilarejo, na floresta tudo era muito escuro devido à grande quantidade de árvores que ali existia. Com medo e curiosidade seguiu. Continuando a caminhada entre a escuridão. Não sabia para onde ir, tudo era muito igual. Foi quando viu ao longe uma imensa claridade e seguiu até ela. Ao chegar mais perto verificou se tratar de uma imensa fogueira com algumas pessoas ao redor, elas estavam com seus braços erguidos, gritando frases em um dialeto não compreendido pelo jovem, pareciam exaltar algum deus ou coisa do tipo. Para sua surpresa, todos vestiam uma capa negra igual a sua. De repente silencio e alguém tomou a palavra:
- Amigos, há algum tempo estamos caminhando com nossas próprias pernas, visto que nosso mestre já cumpriu seu tempo nesta vida. Esta noite é especial, um dos nossos que ainda não se recorda de nosso grupo está perto. Chegou para tomar o papel de líder e assim como seu pai, honrar a natureza e utilizar seus poderes e encantos para acabar com o foco de distribuição do mal, desvendando a grande verdade e nos devolvendo nosso objeto mais estimado.
Valeriano escutava a tudo com atenção, pensava em quanto mistério envolvia aquele grupo. Havia algo de diferente no ar. Por mais loucura que tudo aquilo podia parecer, ele sentia uma estranha sensação de não ver tudo aquilo como novidade, parecia já ter vivido algo do tipo. Respirou fundo e foi em direção ao grupo. Foi quando aquele que falava ao grupo calou-se e ordenou que todos os demais reverenciassem Valeriano. Instantaneamente, todos retiraram os capuzes e ajoelharam-se perante Valeriano. Quando percebeu, ali estava o rapaz de uma vida triste e solitária, sob uma lua cheia, com sete pessoas ajoelhadas aos seus pés e o calor da fogueira a esquentar a face.
- Queiram me desculpar, mas o que está acontecendo? – Perguntou Valeriano. Minha vida se transformou em outra coisa de pouco tempo para cá. Agora um bando de loucos que usam uma capa igual a do meu pai dizendo que estou aqui para substituir o líder. Eu sou apenas mais um sobre essa terra, não faço diferença nenhuma. Preciso apenas cuidar direito da minha horta para não morrer de fome e assim são todos os meus dias. Nunca fiz o mal, sempre procurei agir corretamente como me ensinou meu finado pai. Por que isso? Qual o mistério por trás de tudo? Por favor, me respondam! Eu não agüento mais!
Após alguns minutos de silencio, a pessoa que estava discursando pouco tempo atrás e se parou na frente a Valeriano. Era uma mulher alta, cabelos negros e olhando dentro dos olhos do rapaz disse:
- É chegada a hora, Valeriano. Seu retorno ao nosso grupo é muito bem vindo. Feche os olhos e tente se lembrar dos fatos. Irei lhe contar tudo.
O rapaz, ainda que desconfiado, seguiu as orientações e fechou seus olhos. Foi quando a mulher começou a falar:
- Há três vidas passadas nosso grupo...
terça-feira, 21 de outubro de 2008
O palíndromo e a dupla face

O menino do lago levantou-se do chão com a garrafa contendo o Livro do Destino , fazendo um barulho metálico em seu interior. Ali dentro, estavam três dados de metal (um de ouro, outro de prata e um de bronze), para serem usados junto ao livro. Com aquele pequeno tesouro em mãos, dirigiu-se ao local em que Insônia tinha guardado as coisas de Lord Drago. Entre sete árvores, a sete palmos de terra adentro estava o corpo do cavaleiro do dragão negro. A sete passadas largas ao Norte da sepultura estavam também enterradas a sete palmos de chão toda a vestimenta e armas do guerreiro morto.
Pelo caminho, Prodigal notara que quanto mais se afastava do lago sua pele parecia enrugar ao calor do Sol, e sua mente a esquecer das formas da bela mulher que mergulhara com ele no fundo do lago Azul Profundo. Se de dia a esquecia, a noite voltaria a lembrá-la, encontrá-la? — perguntou a si mesmo.
Depois de lavar a malha, o colete, o elmo, o escudo, a lança e a espada na beira do rio, viu o homem no reflexo da água o rosto de Drago refletido, ao invés do seu. Levou um susto! Se estava ainda sonolento, de todo acordou. Jogou mais água no rosto, e o semblante de menino do lago retornou a sua dupla face. Com a garrafa na mão, retirou o Livro do Destino e os três dados, para guardá-los, como seu Mestre o havia ensinado, num local que somente ele ou seu fiel escudeiro soubesse. Sem ainda ter um ajudante, preferiu correr o risco e ficar com o papiro dentro de sua roupa e os dados grudados no espaço que antes fora da pedra vermelha ─ conhecida como o Coração do Dragão ─, tendo um encaixe perfeito; vestindo em seguida a armadura completa para seguir viagem. Seu cavalo baio estava ali próximo, em uma árvore amarrado. O cavalo negro de seu amo tinha igualmente perecido com seu dono.
Quando o escudeiro, agora travestido de cavaleiro, empunhou firme no braço esquerdo o escudo com a inscrição Nessun Dorma (que ninguém durma) e na mão direita a espada reluzente de Lord Drago, pela primeira vez em eu poder, percebeu pela primeira vez nela curiosa inscrição, em letras diminutas. Palavras que estavam inscritas em um antigo relógio de sol, quando Drago iniciara o menino do lago, filho de Alma (a que se matara) e sobrinho de Vida (a que enlouquecera), em seus estudos de latim e arte da guerra:
- Transit umbra, sed lux permanet. (A sombra passa, mas a luz é duradoura).
Naquele instante, palavras, como flechas, saíram de sua boca, sem ele saber como:
- O meu reino sou eu mesmo e tem em mim a pedra fundamental.
O novo cavaleiro de si mesmo desconhecia muita coisa que o rodeava. Dentre elas que Insônia também conhecia o latim, pois fora a serviçal de um sacerdote atormentado por seus demônios interiores, que a perseguia sem sucesso às noites (quando ela por encanto desaparecia entre os corredores escuros do mosteiro), fazendo-o supliciar-se ao dia, até que a mulher do lago fugiu daquele local, para nunca mais voltar. O padre, todo de branco e repleto de ouro, tinha a alma em total escuridão. Mas foi um outro padre, todo de preto e em completa penúria, que a protegeu do outro, até indicar-lhe o bosque como o reduto onde as mulheres perseguidas pelo falso religioso, pudessem viver em paz. As que resistiam a ele, condenadas por bruxaria, e confessando a heresia, sob tortura, eram levadas à fogueira. Insônia, se não partisse dali, teria o mesmo destino cruel das outras. Contudo, mesmo longe, ela sempre estava por perto de quem precisava de ajuda, conhecendo todos os atalhos que levavam do mosteiro ao Bosque Sem Fim. Um lugar encantado que tinha tal nome, pois aquele que não soubesse andar pelas trilhas ─ como que preso num labirinto de árvores ─, jamais retornava de lá... Porém, existia uma misteriosa profecia que dizia que o bosque poderia perecer o dia em que os Gigantes de Um Olho Só viessem àquela terra visitar.
Prodigal, nada disso sabia, e ao consultar Livro do Destino, jogando os três dados de metal, somadas luas e estrelas neles, dava o número dezesseis, e no verso dezesseis do Livro do Destino haviam igualmente dezesseis versos enigmáticos em forma de palíndromos:
A porta rangia à ignara tropa.
A base do teto desaba.
Lá vou eu em meu eu oval.
A semana toda lemos: só melado tá na mesa.
Assim, a sopa só mereceremos após a missa.
E até o Papa poeta é.
E assim a missa é...
A torre da derrota.
Livre do poder vil.
O mito é ótimo.
Acata o danado... e o danado ataca!
O terrível é ele vir reto.
Reter e rever para prever e reter.
Soa como caos.
Sós: somos sós.
Assam a massa.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
A bola de Cristal foi passear
Era uma manhã linda, novamente o sol tomava conta do reino de estranhos e lá no Castelo continuava o alvoroço pelo sumiço da bola de Cristal do Mago Sidelar, embora estivesse mais que preocupado, o Mago preparava uma magia para desvendar o paradeiro de sua bola de Cristal. Com vários ingredientes nem um pouco comuns para a realização de sua mágica ainda faltava encontrar uma porção de gosma quântica, o que era muito raro nas voltas do reino.
Enquanto isso o pequeno ladrão de frutas preparava-se para mais uma manhã de pesca com seu pai, pois haviam de juntar boas moedas para que o casamento de sua irmã fosse realizado com a benção da Majestade, o preço era muito alto, e era o sonho de todas as moças do reino casar em cerimônia dentro do Castelo de Messiter. Neste dia, o menino resolveu levar a moça de branco com ele, pois se sentia em falta com ela, e queria agradar-lhe com um passeio de barco, colocou-a dentro de seu saco de estopa e a levou todo o tempo presa as suas costas, seu pai pouco se importou com o que o menino carregava, apenas pensava nos peixes que o mar lhe daria naquela manhã. Em certo momento em que seu pai estava de costas no pequeno barco, o menino tirou a bola de Cristal de dentro do saco e mostrou à moça a beleza de lugar que ali se encontrava, ela ficou muito feliz e emocionada com a atitude do garoto que lhe agradara. Ao voltarem repletos de peixes, o dia foi mais um dia de festa e reunião de famílias em volta da mesa.
A noite caíra e o menino se trancara no quarto, por um momento pensou que a moça de branco estava dormindo, mas se enganou, pois ela abrira os olhos e lhe abrira um sorriso lindo que irradiava felicidade e ansiedade, perguntou-lhe:
- Quando me levaras para passear pelo bosque, pelo reino e de novo no mar?
Ele respondeu:
- Minha amiga, eu não sei... não sei se devo, mas logo que achar que posso e me sentir seguro de andar com você pelo reino eu lhe levarei para passear!
Ela não ficou muito contente, mas sentiu a franqueza do garoto em suas palavras, o que a deixou com um sentimento de esperança e voltou-lhe a perspectiva de sair de dentro da bola de Cristal. Ela o desejou boa noite e o garoto ficou deitado pensando em como seria o casamento de sua irmã.
Enquanto isso o pequeno ladrão de frutas preparava-se para mais uma manhã de pesca com seu pai, pois haviam de juntar boas moedas para que o casamento de sua irmã fosse realizado com a benção da Majestade, o preço era muito alto, e era o sonho de todas as moças do reino casar em cerimônia dentro do Castelo de Messiter. Neste dia, o menino resolveu levar a moça de branco com ele, pois se sentia em falta com ela, e queria agradar-lhe com um passeio de barco, colocou-a dentro de seu saco de estopa e a levou todo o tempo presa as suas costas, seu pai pouco se importou com o que o menino carregava, apenas pensava nos peixes que o mar lhe daria naquela manhã. Em certo momento em que seu pai estava de costas no pequeno barco, o menino tirou a bola de Cristal de dentro do saco e mostrou à moça a beleza de lugar que ali se encontrava, ela ficou muito feliz e emocionada com a atitude do garoto que lhe agradara. Ao voltarem repletos de peixes, o dia foi mais um dia de festa e reunião de famílias em volta da mesa.
A noite caíra e o menino se trancara no quarto, por um momento pensou que a moça de branco estava dormindo, mas se enganou, pois ela abrira os olhos e lhe abrira um sorriso lindo que irradiava felicidade e ansiedade, perguntou-lhe:
- Quando me levaras para passear pelo bosque, pelo reino e de novo no mar?
Ele respondeu:
- Minha amiga, eu não sei... não sei se devo, mas logo que achar que posso e me sentir seguro de andar com você pelo reino eu lhe levarei para passear!
Ela não ficou muito contente, mas sentiu a franqueza do garoto em suas palavras, o que a deixou com um sentimento de esperança e voltou-lhe a perspectiva de sair de dentro da bola de Cristal. Ela o desejou boa noite e o garoto ficou deitado pensando em como seria o casamento de sua irmã.
domingo, 5 de outubro de 2008
O lago Azul Profundo

Após enterrar o corpo de Drago, ao lado da mais frondosa árvore do bosque, e com a sua malha lavada e costurada por Insônia, cabia a Prodigal seguir a sina do cavaleiro do dragão negro, primeiramente achando o Livro do Destino (pelo seu senhor sempre escondido antes de cada batalha) e depois escolhendo um fiel escudeiro para que a sua jornada continuasse. Mas quem escolher, se ele estava sozinho naquele mundo de estranhos?
Sem dizer uma só palavra, Insônia - que não lia pensamentos, mas entendia os olhares das pessoas e seus sentimentos -, disse ao jovem:
- Tu primum exhibe te bonum, et sic quaere alterum similem tui. [Publílio Siro] (Primeiro mostra que és bom, e assim procura outro semelhante a ti). Tudo tem o seu devido tempo.
- Você poderia acompanhar-me nessa viagem, ser minha escudeira? – retrucou o jovem, em forma de pergunta a mulher, que fazendo uma pausa, disse:
- Tui cum sitiant, ne agros alienos riga.[Publílio Siro] (Enquanto os teus campos têm sede, não vás regar os alheios). Primeiro, precisas decifrar teu enigma interior, para depois partir em uma jornada. Precisas descobrir o livro da tua existência, antes de querer mudar o mundo... O teu mundo começa e termina em ti mesmo...
Prodigal então, relendo diversas vezes o enigmático poema deixado por Drago, percebeu que o cavaleiro deveria ter escondido o livro num local ermo, de difícil acesso, entre o sono e o sonho profundo, como falavam os versos... Se ao céu ele não poderia alcançar, ao sono profundo de um lago, quem sabe ele pudesse chegar. Se Drago se arrastara, ferido de morte, até a beira daquele lago Azul Profundo, provavelmente em seu leito fundo ele tenha sepultado o Livro do Destino, para que seu fiel escudeiro, quando preciso fosse, o achasse...
Depois de contar a Insônia seu intento, de ir ao fundo do lago, Prodigal escutou daquela espécie de deusa das águas, em forma de mulher de areia, uma curiosa sentença:
- Tracta ante factum, quia post factum sera retractatio est. [S.Bernardo, De Consideratione 4.11.1] (Examina antes de fazer, porque depois de feito é tardio o arrependimento). Se é isso que desejas, contigo estarei.
- Não há do que se arrepender, mulher. O único arrependimento é o de não viver a vida ao seu momento. Ajude-me a ir até o fundo do lago, do qual, parece-me que você sabe todos os segredos e encantos para guiar-me aos meus medos mais secretos... E eu te recompensarei com minha eterna lealdade.
- Tranquillas etiam naufragus horret aquas. [Ovídio, Ex Ponto 2.7.8] (O náufrago tem medo até das águas calmas). Mas enfrentar o medo é a maior prova de coragem!
- Entendo o que dizes, Insônia. Minha vida é um eterno naufrágio. Estou sempre à deriva. Não consigo ler a rosa-dos-ventos, e isso que sou agora um cavaleiro da Ordem do Vento. Mas se você vier comigo não estarei mais só.
- Tranquillo quilibet gubernator est. [Sêneca, Epistulae Morales 85.34] (Com mar calmo qualquer um é piloto). Aproveite, então, o lago sem ondas, pois quando for preciso adentrares ao mar revolto, precisarás estar pronto para enfrentar a tudo e a todos: dos golfinhos aos tubarões, e saber distinguir de longe, uns dos outros.
- Certamente. A vida é para os que sabem contornar o Cabo das Tormentas e descobrir um Novo Mundo, que dizem existir n’algum lugar distante ou em si mesmo. Então, auxilie-me a chegar ao fundo do lago e de lá trazer comigo são e salvo o Livro do Destino para que eu possa seguir em minha missão.
- Traditio nihil amplius transferre debet vel potest, ad eum qui accipit, quam est apud eum qui tradit. [Digesta 41.1.20] (A transmissão não deve nem pode transferir ao que recebe mais do que está com o que transmite). Mas fiques tranqüilo, acompanhar-te-ei os passos e as braçadas sempre, da mesma forma que a lua no céu segue aos homens pela noite funda...
E dito isso, a mão direita da mulher pegou a mão esquerda do impetuoso jovem, conduzindo-o apressadamente à beira do lago, antes do raiar do sol. O eclipse da lua estava por terminar quando eles mergulharam profundamente nas águas calmas, afundando num estado de quase sonho e sono fecundo, profundo, indo até o mais fundo de seus redemoinhos interiores. A água era doce, clara e morna como um sonho. Lá embaixo a paz reinava, bem diverso de à tona. Os dois sempre de mãos dadas foram se aprofundando no lago calmamente. Havia uma harmonia incrível entre ambos, a água fluía por seus poros, e o tempo não era percebido ao seu redor. Com a respiração presa, e o coração disparado, foram indo e indo mais fundo.
Mais adiante, quando Prodigal viu uma reluzente garrafa submersa, presa entre corais, pensou: eis o sinal! Insônia fez-lhe um gesto com a mão: vai! E o jovem abriu bem os braços e mergulhou mais fundo, ajoelhando-se em frente a misteriosa garrafa prateada. O que teria em seu interior? Seria o Livro do Destino, em forma de papiro enrolado? Teria algo mais. Estaria vazia ou seu conteúdo deteriorado? Mil e uma possibilidades lhe passaram pela mente, já não conseguindo mais prender a respiração... Fez muita força até que a garrafa desprendeu-se dos estranhos corais. Quase perdendo os sentidos, virou-se procurando Insônia para pedir-lhe ajuda, mas não a encontrou mais. A sua sereia havia desaparecido no lago azul profundo ou teria emergido na praia? Tomado de pânico, com medo de se afogar, voltou à tona, e lá não encontrou mais sequer as pegadas na areia daquela misteriosa mulher. Desaparecera no ar ou na água? O vento teria apagado sua visita? Lembrou-se apenas de suas últimas palavras, quando Insônia deixou subentendido que estaria ao seu lado ao anoitecer... Sem fôlego, com a garrafa nas mãos, caiu exausto à beira do lago, em um sono profundo, em busca de respostas para as perguntas cada vez mais complexas...
Em sonho, reencontrou Insônia, sempre bela, com vestes reluzentes, que lhe dissera pausadamente:
- Tu si hic sis, aliter sentias. [Terêncio, Andria 310] (Se estivesses no meu lugar, pensarias diferente).
Naquele instante, Prodigal acordou sobressaltado, sem saber quanto tempo passara ─ afinal, naquele Reino de estranhos o tempo parecia como que aprisionado em uma imensa bola de cristal...
Observação: Imagem acima, extraída da internet, do endereço abaixo
http://www.nooneelse.blogger.com.br/arvores%20azuis.jpg
sábado, 27 de setembro de 2008
O sétimo tempo anunciado
O bispo branco correu feito o vento em direção aos campos de trigo até perder o fôlego. Deixou-se tombar de todo comprimento e peso, e no chão permaneceu por horas, o rosto enfiado no pasto, como uma minhoca que procura abrigo. Na cabeça, imagens formavam-se e atropelavam-se, misturando presente e passado e possíveis pedaços de futuro, num ritmo tão desconcertante que definitivamente o desconcertou.
Perdeu a noção do tempo, a consciência do corpo, e o fio da realidade. Invadiu o absurdo com força, porque tinha medo do porvir e porque rejeitava essa habilidade de antever o logo. Desde a infância sentia assim o desajuste: era estranho além da média dos estranhos familiares. Aos sete anos pressentiu a chegada de uma nuvem de gafanhotos que devastou as lavouras da região. Aos 14, intuiu a investida de uma tribo Atrixar que matou um terço da população do vilarejo, sem poupar sequer as crianças. Mais tarde, aos 21, percebeu a estranha relação de dores agudas na cabeça, bem no centro da testa, com a proximidade da epidemia Marja, que dizimou famílias inteiras alastrada pela água que abastecia o vilarejo.
Curiosamente, assim foi, de sete em sete, encerrando e recomeçando ciclos de visões aterradoras. Escolheu a vida religiosa para se distanciar dos olhos dos outros, pois temia o poder da incompreensão e precisava encontrar a fé, ou, pelo menos, algumas respostas. Os fragmentos do tempo e de histórias desconexas jamais deixaram de perseguí-lo, mesmo perto do Deus de então, e ao fim de sete tempos certamente nova destruição viria.
Naquele mês findava o sexto ciclo. O bispo, branco, correu feito o vento em direção aos campos de trigo e, na medida em que avançava entre o verde amarelecido do campo, enveredava pelo labirinto da própria mente, forjando uma clausura particular, que o abrigaria do destino incurável, esse de ver o tempo, assim, sem freios. Sentiu a pele do rosto roçar a grama e sorriu nervosamente, pediu ao seu Deus que desse fim àquela vida torta e infeliz. E mais uma vez viu: viu o crucifixo de prata que trazia preso ao pescoço pendendo até o nível do umbigo, por dentro do hábito, ganhar um brilho incomum e erguer-se acima da sua cabeça. Viu-o reluzir e cravar fundo na ausência de cabelos, "para isso servia a calvície", pensou, "veio se armando aos poucos para receber a ponta fria e prateada que me mostraria a redenção", e sorriu.
O verde amarelecido do campo de trigo ao redor do bispo encheu-se de pingos vermelhos e guardou o santo homem durante os meses que se seguiram. Foram meses de silêncio e de esquecimento, tempo em que os pássaros de asas negras estiveram encarregados de desconstituir o corpo e as vestes. Sobrou o cordão de prata com o crucifixo da ordem entre ossos e carne decomposta. O sétimo tempo já havia começado.
Perdeu a noção do tempo, a consciência do corpo, e o fio da realidade. Invadiu o absurdo com força, porque tinha medo do porvir e porque rejeitava essa habilidade de antever o logo. Desde a infância sentia assim o desajuste: era estranho além da média dos estranhos familiares. Aos sete anos pressentiu a chegada de uma nuvem de gafanhotos que devastou as lavouras da região. Aos 14, intuiu a investida de uma tribo Atrixar que matou um terço da população do vilarejo, sem poupar sequer as crianças. Mais tarde, aos 21, percebeu a estranha relação de dores agudas na cabeça, bem no centro da testa, com a proximidade da epidemia Marja, que dizimou famílias inteiras alastrada pela água que abastecia o vilarejo.
Curiosamente, assim foi, de sete em sete, encerrando e recomeçando ciclos de visões aterradoras. Escolheu a vida religiosa para se distanciar dos olhos dos outros, pois temia o poder da incompreensão e precisava encontrar a fé, ou, pelo menos, algumas respostas. Os fragmentos do tempo e de histórias desconexas jamais deixaram de perseguí-lo, mesmo perto do Deus de então, e ao fim de sete tempos certamente nova destruição viria.
Naquele mês findava o sexto ciclo. O bispo, branco, correu feito o vento em direção aos campos de trigo e, na medida em que avançava entre o verde amarelecido do campo, enveredava pelo labirinto da própria mente, forjando uma clausura particular, que o abrigaria do destino incurável, esse de ver o tempo, assim, sem freios. Sentiu a pele do rosto roçar a grama e sorriu nervosamente, pediu ao seu Deus que desse fim àquela vida torta e infeliz. E mais uma vez viu: viu o crucifixo de prata que trazia preso ao pescoço pendendo até o nível do umbigo, por dentro do hábito, ganhar um brilho incomum e erguer-se acima da sua cabeça. Viu-o reluzir e cravar fundo na ausência de cabelos, "para isso servia a calvície", pensou, "veio se armando aos poucos para receber a ponta fria e prateada que me mostraria a redenção", e sorriu.
O verde amarelecido do campo de trigo ao redor do bispo encheu-se de pingos vermelhos e guardou o santo homem durante os meses que se seguiram. Foram meses de silêncio e de esquecimento, tempo em que os pássaros de asas negras estiveram encarregados de desconstituir o corpo e as vestes. Sobrou o cordão de prata com o crucifixo da ordem entre ossos e carne decomposta. O sétimo tempo já havia começado.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Semper et ubique
Sempre e em toda parte, assim Lord Drago, integrante da Irmandade do Vento, referia-se ao Colecionador, o poderoso guardião da Ordem do Tempo, que nem os seus iniciados nem os mais infiltrados naquela sociedade secreta conheciam a verdadeira identidade... A única coisa que o cavaleiro do dragão negro sabia e tinha repassado a Prodigal era o fato de que, em caso de morte do cavaleiro, caberia ao fiel escudeiro assumir sua armadura, escudo e espada, carregando consigo o Livro do Destino, para tentar protegê-lo, ainda que com a própria vida, da cobiça do Colecionador, que desejava possuir todos os livros do mundo e dominar com isso todo o conhecimento humano em sua Biblioteca Sepulcral...
Lord Drago sabia que naquele Reino de estranhos existiam outros dois livros mágicos (dos Sonhos e dos Dias), que juntamente com o seu, o do Destino, continham em si a chave para enfrentar o temível Colecionador. Temendo por sua ruína, prevista nos dados e no livro, Drago guardara aquele oráculo num local enigmático que somente seu fiel escudeiro, se viesse a lembrar de seus ensinamentos, poderia encontrar...
Na beira do lago Azul Profundo, Prodigal pediu a Insônia que o ajudasse a retirar a pesada armadura de seu amo e Senhor. A mulher, sem dizer uma só palavra, acatou seu pedido. Os dois, com muita dificuldade, abriram uma a uma as fivelas daquela quase inexpugnável malha. A pedra preciosa, chamada o coração do dragão, ainda vertia sangue. Um pequeno mar vermelho se formou ao redor do imenso corpo sem vida. Após alguns minutos, o cadáver de Drago estava despido. Insônia aproveitou a beira do lago para lavar sua ferida.
Enquanto Prodigal desafivelava a malha nem percebera que a bela mulher tinha adentrado em um pequeno bosque ali próximo e de lá trazido ervas medicinais para fazer ungüento e cicatrizar a profunda ferida.
- Para que tanto cuidado com um corpo sem vida?, perguntou o jovem à moça dedicada.
- Semper et ubique unum ius (Sempre e em toda parte um único direito).
Envergonhado, conhecendo bem aquela língua ensinada pelo seu mestre, o escudeiro percebeu que teria muito que aprender com a vida e também com aquela mulher se quisesse se tornar um honrado cavaleiro. Tentando se redimir, trouxe a catapulta que arremessava os dois escudos de fogo, para poder carregar para dentro do bosque o corpo de seu amo e Senhor. Precisou de mais duas viradas de areia da ampulheta para que ele e a mulher cavassem uma cova funda, ao lado de uma imensa árvore, para em seu interior depositar o corpo de Drago.
Insônia trazia na cintura uma pequena bolsa enrolada, de onde tirou agulha e linha para costurar a malha do cavaleiro do dragão negro. Mexendo em seu interior, encontrou um pedaço de pergaminho, todo amassado, ensangüentado... Quando Prodigal se aproximou, a mulher alcançou-lhe o pedaço de papel, que continha um misterioso poema escrito, ao que tudo indicava, com o próprio sangue de Drago. Uma confissão? Um segredo? Que nada, quem sabe alguma mensagem cifrada indicando onde se encontrava O Livro do Destino, pensou o menino do lago tentando decifrar uma mensagem dentro de outra mais imbricada.
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Lord Drago sabia que naquele Reino de estranhos existiam outros dois livros mágicos (dos Sonhos e dos Dias), que juntamente com o seu, o do Destino, continham em si a chave para enfrentar o temível Colecionador. Temendo por sua ruína, prevista nos dados e no livro, Drago guardara aquele oráculo num local enigmático que somente seu fiel escudeiro, se viesse a lembrar de seus ensinamentos, poderia encontrar...
Na beira do lago Azul Profundo, Prodigal pediu a Insônia que o ajudasse a retirar a pesada armadura de seu amo e Senhor. A mulher, sem dizer uma só palavra, acatou seu pedido. Os dois, com muita dificuldade, abriram uma a uma as fivelas daquela quase inexpugnável malha. A pedra preciosa, chamada o coração do dragão, ainda vertia sangue. Um pequeno mar vermelho se formou ao redor do imenso corpo sem vida. Após alguns minutos, o cadáver de Drago estava despido. Insônia aproveitou a beira do lago para lavar sua ferida.
Enquanto Prodigal desafivelava a malha nem percebera que a bela mulher tinha adentrado em um pequeno bosque ali próximo e de lá trazido ervas medicinais para fazer ungüento e cicatrizar a profunda ferida.
- Para que tanto cuidado com um corpo sem vida?, perguntou o jovem à moça dedicada.
- Semper et ubique unum ius (Sempre e em toda parte um único direito).
Envergonhado, conhecendo bem aquela língua ensinada pelo seu mestre, o escudeiro percebeu que teria muito que aprender com a vida e também com aquela mulher se quisesse se tornar um honrado cavaleiro. Tentando se redimir, trouxe a catapulta que arremessava os dois escudos de fogo, para poder carregar para dentro do bosque o corpo de seu amo e Senhor. Precisou de mais duas viradas de areia da ampulheta para que ele e a mulher cavassem uma cova funda, ao lado de uma imensa árvore, para em seu interior depositar o corpo de Drago.
Insônia trazia na cintura uma pequena bolsa enrolada, de onde tirou agulha e linha para costurar a malha do cavaleiro do dragão negro. Mexendo em seu interior, encontrou um pedaço de pergaminho, todo amassado, ensangüentado... Quando Prodigal se aproximou, a mulher alcançou-lhe o pedaço de papel, que continha um misterioso poema escrito, ao que tudo indicava, com o próprio sangue de Drago. Uma confissão? Um segredo? Que nada, quem sabe alguma mensagem cifrada indicando onde se encontrava O Livro do Destino, pensou o menino do lago tentando decifrar uma mensagem dentro de outra mais imbricada.
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domingo, 21 de setembro de 2008
Cristal e seu desejo secreto
Ao amanhecer no reino, a princesa Cristal acordara aflita e sentira uma vontade que lhe afligia há anos, ela necessitava do mar, o mar que ouvira falarem, o seu maior anseio. O reino de estranhos era banhado pelo mar em todos os lados, e a beleza que o caracterizava era singular pelas vistas perfeitas e fontes de inspiração por todos os cantos. Quando sua ama acordou pôs-se a contar-lhe que naquela noite havia sonhado com mar, que almejava senti-lo, tocá-lo e necessitava de forma absurda um contato com o maior ser que já ouvira falar... sua ama não soube como fazer, e o que fazer, restou-lhe a vontade de ajudá-la, mas mesmo assim a pobre ama não hesitou em ressaltar:
- Minha menina de ouro posso tentar, de alguma forma, mesmo que saias daqui as escondidas, mas terei de ter contigo mais tarde, pois tenho medo de confusões e o reino não anda muito calmo ultimamente. Veremos minha jovem! Veremos!
Cristal apenas sorriu, nada mais, no fundo sabia que sua ama realizaria seu desejo, mesmo que fosse as escondidas. Alguns momentos se passaram e ela já estava aflita, não sabia onde teria ido sua ama, nem a quem ela poderia contar para realizar o seu desejo, mas sentia uma forte sensação de esperança que brotava-lhe gotas de cristal nos olhos, Cristal estava emocionada com a possibilidade de sair um pouco do Castelo de Messiter e conhecer aquilo que tanto falavam e ostentavam como a maior fonte de vida do Universo... Certa vez ouvira uma história de um pescador e poeta, e que no mar perdeu a sua amada, mas que havia salvado seus escritos, ela achava linda a história, embora ao fundo fosse um pouco absurda, pois se tanto amava a mulher, o pescador de certo a salvaria e não um livro com alguns escritos...
- Minha menina!
Exclamou a ama.
- Mais tarde, mais tarde terás teu sonho realizado, vamos ao mar, mas não lhe contarei o ajudante que arrumei, pois sei que se algo acontecer ele poderá pagar muito caro, por isso ele será apenas uma sombra amiga que nos levará ao tão desejado mar de minha menina de ouro.
A princesa concordara com aquele pedido de sua ama, ela sabia que poderia confiar em seus contatos, e qualquer ajuda naquele momento seria bem vinda, pois já sentira o frio na barriga desde já.
A carruagem estava ao fundo do Castelo de Messiter, aquele horário da manhã poucos passavam por aquele local, a ama levava Cristal com cuidado e a instalava de forma confortável ao banco rodeado de véus brancos por todos os lados, assim seria impossível reconhecê-la ao sair do reino. O cocheiro avançava de pressa por entre o bosque e logo mais chegaria às dunas de areia, Cristal murmurava para sua ama o cheiro que sentira durante o caminho, o mato, as flores, o cantarolar dos quero-queros e demais sensações que só ela havia o dom de sentir, de repente deparou-se ao cheiro do mar, não lhe agradou de todo em sua primeira impressão, mas logo sentiu-se como uma descobridora dos mares, dos 7 mares. A carruagem havia parado, seu guia secreto não havia falado nada até chegar ao local mais escondido daquela imensidão litorânea:
- Chegamos minha majestade! Creio que seja de seu agrado... e estamos perto de pedras, que podes subir e sentir mais de perto a brisa do Mar, ou ainda colocar seus pés na água, apenas sentando-se a uma linda pedra ao sol!
A princesa estava sem palavras, não havia vocabulário para a descrição de tantas sensações, realizara seu desejo, sentia o cheiro do mar, tocava na água com seus pés, e ainda ganhara conchas de seu cocheiro secreto. Adorava aqueles momentos, não queria que acabasse nunca tal momento, a areia fez lembrar algo familiar que não conseguiu decifrar, a suavidade de seu toque, a água batendo em sua canela, todas sensações que mais tarde descrevera para seu escriba, já em seu aposento majestoso...
O Mar
Hoje quis sentir o mar,
Tocá-lo, pegá-lo, senti-lo,
Foi incrível! Absolutamente!
Enfim, seu cheiro em meu nariz eu pude sentir,
Seu gosto em meu hálito, e como fez palpitar meu coração,
A suavidade de sua agressividade batendo aos meus pés,
Espantei-me ao sentir o prazer das águas...
Seu perfume infinito, e sua grandeza profunda,
Suas areias, e suas conchas, sua maior vida!
Mar, imenso Mar!
Que um dia hei de te olhar!
- Minha menina de ouro posso tentar, de alguma forma, mesmo que saias daqui as escondidas, mas terei de ter contigo mais tarde, pois tenho medo de confusões e o reino não anda muito calmo ultimamente. Veremos minha jovem! Veremos!
Cristal apenas sorriu, nada mais, no fundo sabia que sua ama realizaria seu desejo, mesmo que fosse as escondidas. Alguns momentos se passaram e ela já estava aflita, não sabia onde teria ido sua ama, nem a quem ela poderia contar para realizar o seu desejo, mas sentia uma forte sensação de esperança que brotava-lhe gotas de cristal nos olhos, Cristal estava emocionada com a possibilidade de sair um pouco do Castelo de Messiter e conhecer aquilo que tanto falavam e ostentavam como a maior fonte de vida do Universo... Certa vez ouvira uma história de um pescador e poeta, e que no mar perdeu a sua amada, mas que havia salvado seus escritos, ela achava linda a história, embora ao fundo fosse um pouco absurda, pois se tanto amava a mulher, o pescador de certo a salvaria e não um livro com alguns escritos...
- Minha menina!
Exclamou a ama.
- Mais tarde, mais tarde terás teu sonho realizado, vamos ao mar, mas não lhe contarei o ajudante que arrumei, pois sei que se algo acontecer ele poderá pagar muito caro, por isso ele será apenas uma sombra amiga que nos levará ao tão desejado mar de minha menina de ouro.
A princesa concordara com aquele pedido de sua ama, ela sabia que poderia confiar em seus contatos, e qualquer ajuda naquele momento seria bem vinda, pois já sentira o frio na barriga desde já.
A carruagem estava ao fundo do Castelo de Messiter, aquele horário da manhã poucos passavam por aquele local, a ama levava Cristal com cuidado e a instalava de forma confortável ao banco rodeado de véus brancos por todos os lados, assim seria impossível reconhecê-la ao sair do reino. O cocheiro avançava de pressa por entre o bosque e logo mais chegaria às dunas de areia, Cristal murmurava para sua ama o cheiro que sentira durante o caminho, o mato, as flores, o cantarolar dos quero-queros e demais sensações que só ela havia o dom de sentir, de repente deparou-se ao cheiro do mar, não lhe agradou de todo em sua primeira impressão, mas logo sentiu-se como uma descobridora dos mares, dos 7 mares. A carruagem havia parado, seu guia secreto não havia falado nada até chegar ao local mais escondido daquela imensidão litorânea:
- Chegamos minha majestade! Creio que seja de seu agrado... e estamos perto de pedras, que podes subir e sentir mais de perto a brisa do Mar, ou ainda colocar seus pés na água, apenas sentando-se a uma linda pedra ao sol!
A princesa estava sem palavras, não havia vocabulário para a descrição de tantas sensações, realizara seu desejo, sentia o cheiro do mar, tocava na água com seus pés, e ainda ganhara conchas de seu cocheiro secreto. Adorava aqueles momentos, não queria que acabasse nunca tal momento, a areia fez lembrar algo familiar que não conseguiu decifrar, a suavidade de seu toque, a água batendo em sua canela, todas sensações que mais tarde descrevera para seu escriba, já em seu aposento majestoso...
O Mar
Hoje quis sentir o mar,
Tocá-lo, pegá-lo, senti-lo,
Foi incrível! Absolutamente!
Enfim, seu cheiro em meu nariz eu pude sentir,
Seu gosto em meu hálito, e como fez palpitar meu coração,
A suavidade de sua agressividade batendo aos meus pés,
Espantei-me ao sentir o prazer das águas...
Seu perfume infinito, e sua grandeza profunda,
Suas areias, e suas conchas, sua maior vida!
Mar, imenso Mar!
Que um dia hei de te olhar!
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Mais uma carta misteriosa
Já havia se passado alguns dias desde a grande tragédia que ocorreu com Valeriano. Ele tentava retomar sua rotina normal, em sua simples e melancólica vida.
Os sonhos, os versos, os desenhos, tudo ainda estava muito vivo em sua mente. De repente escutou batidas em sua porta. Ao abrir não encontrou ninguém, apenas um pedaço de papel. Recolheu o mesmo do chão e notou que se tratava de uma carta sem assinatura, porém reconheceu o mesmo desenho que havia no bilhete encontrado dentro da capa.
Sou amiga, mas ainda não irei me revelar.
Você tem uma missão muito importante e precisa de esclarecimentos.
O trabalho que seu pai começou você terminará.
Muitas mudanças irão ocorrer neste reino e você será responsável por muitas delas. Pode se sentir sozinho, mas esteja certo que muitos dependem de você.
Algumas pessoas irão surgir em sua vida para ajudá-lo ou destruí-lo.
Vá ao bosque na próxima lua vestindo sua capa negra.
Lembre-se: nas dificuldades escondem-se as maiores alegrias.
Mais essa agora – pensou – por que tanto mistério?
Papai pelo visto foi alguém importante mesmo. Não foi a toa que o Rei mandou assassiná-lo. Farei o que for preciso para continuar o que meu pai começou, seja lá o que isso queira dizer...
Os sonhos, os versos, os desenhos, tudo ainda estava muito vivo em sua mente. De repente escutou batidas em sua porta. Ao abrir não encontrou ninguém, apenas um pedaço de papel. Recolheu o mesmo do chão e notou que se tratava de uma carta sem assinatura, porém reconheceu o mesmo desenho que havia no bilhete encontrado dentro da capa.
Sou amiga, mas ainda não irei me revelar.
Você tem uma missão muito importante e precisa de esclarecimentos.
O trabalho que seu pai começou você terminará.
Muitas mudanças irão ocorrer neste reino e você será responsável por muitas delas. Pode se sentir sozinho, mas esteja certo que muitos dependem de você.
Algumas pessoas irão surgir em sua vida para ajudá-lo ou destruí-lo.
Vá ao bosque na próxima lua vestindo sua capa negra.
Lembre-se: nas dificuldades escondem-se as maiores alegrias.
Mais essa agora – pensou – por que tanto mistério?
Papai pelo visto foi alguém importante mesmo. Não foi a toa que o Rei mandou assassiná-lo. Farei o que for preciso para continuar o que meu pai começou, seja lá o que isso queira dizer...
domingo, 14 de setembro de 2008
O duplo eu e a longa jornada interior
Homo simplex in vitalitate, duplex in humanitate – eis o lema dos cavaleiros da Irmandade do Vento, lembrado por Prodigal ─ o menino do lago e o fiel escudeiro ─, diante do corpo sem vida de Lord Drago, seu amo e Senhor.
Nunca tivera acesso a todos os segredos de Drago, mas precisaria descobrir o paradeiro d’O Livro do Destino, para poder seguir a sina de seu portador: ser o cavaleiro do dragão negro e enfrentar os integrantes da Ordem do Tempo, que tudo sabem, tudo vêem, tudo controlam, catalogam, taxam... Enquanto a Irmandade do Vento se preocupa em descobrir o sentido da vida, contido na Árvore dos Dias, os membros da Ordem do Tempo, preocupam-se com o acúmulo de bens materiais; da reunião de tudo que é tipo de documento, texto, para confinar na sua própria Biblioteca Universal e sua visão cíclica, ciclópica... Ambos os grupos têm em um livro sua fonte de vida. Os primeiros, o do Destino; os outros, o Livro das Horas, pois tudo é calculado com precisão matemática...
Os cavaleiros do Vento são em sua maior parte desapegados dos bens, das terras, do materialismo vigente; porém, os do Tempo, tudo querem demarcar, definir, indexar, anexar, se apropriar... No Reino de estranhos ─ uma cidade-estado como outras tantas em sua época ─, oitenta por cento das terras pertencem a menos de vinte por cento das famílias. Os feudos são imensos e o Tempo naqueles redutos, incrível e paradoxalmente, parece estar encerrado numa pequena bola de cristal, como que em eterno vácuo, silencioso, sem nada ou quase mudar. Até mesmo quando dá a falsa impressão de mudar, mantém-se quase que intacto. Naquele local, dinastias se formam e se mantém no poder com o aval da Plebe Rude. Há rumores sobre a lenda de um jovem, chamado Robin Rude, em um reino distante, que rouba dos ricos para dar aos pobres.
No reino de estranhos, o velho Kassim é um dos maiores proprietários de terras emersas e submersas da região até onde o olhar perde a visão; Agnus Dei, como é conhecido o guardião do Livro dos Sete Selos ou das Horas, outro que possui pequenos reinos dentro de um reino maior, que também está contido no interior doutro e assim sucessivamente; por fim, Don Borja, um jovem e valoroso concorrente dos demais...
Prodigal, que desconhecia seu passado, veio seguindo os passos firmes e fundos do cavalo de Drago por aquela terra de areias brancas, encontrando aquele corpo imenso e sem vida na beira do lago Azul Profundo. Sozinho por breves instantes que pareceram horas, dias, não teve forças suficientes para movimentar àquela pesada armadura. Somente quando a mulher das águas, chamada Insônia, submergiu de seu mergulho noturno, foi que tudo pareceu mudar. O tempo passou a cair na imensa ampulheta das horas, e uma chuva fina, misturada com o vento, deu a ele a fantasiosa impressão de chover areia sobre ambos...
Insônia trazia na mão um cantil cheio de água para reanimar Drago, mas este não estava mais ali, sua alma dura havia partido para o grande vale das sombras, que todos irão um dia visitar. A bela mulher, então, pôs a mão esquerda sobre o ombro direito de Prodigal, que ajoelhado próximo de seu Senhor, tentava a todo custo conter uma pequena cachoeira interior, querendo desaguar. O jovem dizia dezenas de vezes para si mesmo: Escudeiros não devem fazer isso! Insônia, ajoelhada também do seu lado, como que em oração, disse apenas: O caminho de um rio ninguém pode barrar, e se assim o fizer, terá sucesso passageiro, pois um dia, é a lei da natureza, irá tudo transbordar. Não fuja da natureza, seja você mesmo e não o seu Outro.
Aquelas palavras caíram dentro do poço fundo do escudeiro, fazendo o barulho de pedras mergulhando na água, e surgindo círculos concêntricos, um após o outro... O jovem virou-se para a mulher e perguntou seu nome. Insônia respondeu de imediato com outra pergunta: De que adiantam os nomes se as palavras não dão conta dos símbolos que as coisas encerram em seu interior? O Sol poderia ser chamado de moeda de ouro e a Lua de moeda de prata e mesmo assim não deixariam de ser o que são, não concordas? A beleza e a estranheza daquela moça do lago fizeram Prodigal não saber o que responder. Se tivesse em seu poder O Livro do Destino, quem sabe, teria a resposta para tudo na vida, da mesma forma que Lord Drago tinha em sua grande jornada interior... Pelo jeito, o menino do lago, com o encanto quebrado e aparentando quase a idade que deveria ter, aprenderia muito com a natureza, antes de vestir a escura armadura de seu Senhor...
Nunca tivera acesso a todos os segredos de Drago, mas precisaria descobrir o paradeiro d’O Livro do Destino, para poder seguir a sina de seu portador: ser o cavaleiro do dragão negro e enfrentar os integrantes da Ordem do Tempo, que tudo sabem, tudo vêem, tudo controlam, catalogam, taxam... Enquanto a Irmandade do Vento se preocupa em descobrir o sentido da vida, contido na Árvore dos Dias, os membros da Ordem do Tempo, preocupam-se com o acúmulo de bens materiais; da reunião de tudo que é tipo de documento, texto, para confinar na sua própria Biblioteca Universal e sua visão cíclica, ciclópica... Ambos os grupos têm em um livro sua fonte de vida. Os primeiros, o do Destino; os outros, o Livro das Horas, pois tudo é calculado com precisão matemática...
Os cavaleiros do Vento são em sua maior parte desapegados dos bens, das terras, do materialismo vigente; porém, os do Tempo, tudo querem demarcar, definir, indexar, anexar, se apropriar... No Reino de estranhos ─ uma cidade-estado como outras tantas em sua época ─, oitenta por cento das terras pertencem a menos de vinte por cento das famílias. Os feudos são imensos e o Tempo naqueles redutos, incrível e paradoxalmente, parece estar encerrado numa pequena bola de cristal, como que em eterno vácuo, silencioso, sem nada ou quase mudar. Até mesmo quando dá a falsa impressão de mudar, mantém-se quase que intacto. Naquele local, dinastias se formam e se mantém no poder com o aval da Plebe Rude. Há rumores sobre a lenda de um jovem, chamado Robin Rude, em um reino distante, que rouba dos ricos para dar aos pobres.
No reino de estranhos, o velho Kassim é um dos maiores proprietários de terras emersas e submersas da região até onde o olhar perde a visão; Agnus Dei, como é conhecido o guardião do Livro dos Sete Selos ou das Horas, outro que possui pequenos reinos dentro de um reino maior, que também está contido no interior doutro e assim sucessivamente; por fim, Don Borja, um jovem e valoroso concorrente dos demais...
Prodigal, que desconhecia seu passado, veio seguindo os passos firmes e fundos do cavalo de Drago por aquela terra de areias brancas, encontrando aquele corpo imenso e sem vida na beira do lago Azul Profundo. Sozinho por breves instantes que pareceram horas, dias, não teve forças suficientes para movimentar àquela pesada armadura. Somente quando a mulher das águas, chamada Insônia, submergiu de seu mergulho noturno, foi que tudo pareceu mudar. O tempo passou a cair na imensa ampulheta das horas, e uma chuva fina, misturada com o vento, deu a ele a fantasiosa impressão de chover areia sobre ambos...
Insônia trazia na mão um cantil cheio de água para reanimar Drago, mas este não estava mais ali, sua alma dura havia partido para o grande vale das sombras, que todos irão um dia visitar. A bela mulher, então, pôs a mão esquerda sobre o ombro direito de Prodigal, que ajoelhado próximo de seu Senhor, tentava a todo custo conter uma pequena cachoeira interior, querendo desaguar. O jovem dizia dezenas de vezes para si mesmo: Escudeiros não devem fazer isso! Insônia, ajoelhada também do seu lado, como que em oração, disse apenas: O caminho de um rio ninguém pode barrar, e se assim o fizer, terá sucesso passageiro, pois um dia, é a lei da natureza, irá tudo transbordar. Não fuja da natureza, seja você mesmo e não o seu Outro.
Aquelas palavras caíram dentro do poço fundo do escudeiro, fazendo o barulho de pedras mergulhando na água, e surgindo círculos concêntricos, um após o outro... O jovem virou-se para a mulher e perguntou seu nome. Insônia respondeu de imediato com outra pergunta: De que adiantam os nomes se as palavras não dão conta dos símbolos que as coisas encerram em seu interior? O Sol poderia ser chamado de moeda de ouro e a Lua de moeda de prata e mesmo assim não deixariam de ser o que são, não concordas? A beleza e a estranheza daquela moça do lago fizeram Prodigal não saber o que responder. Se tivesse em seu poder O Livro do Destino, quem sabe, teria a resposta para tudo na vida, da mesma forma que Lord Drago tinha em sua grande jornada interior... Pelo jeito, o menino do lago, com o encanto quebrado e aparentando quase a idade que deveria ter, aprenderia muito com a natureza, antes de vestir a escura armadura de seu Senhor...
sábado, 6 de setembro de 2008
O sol irradiava um calor imenso...
O sol irradiava um calor imenso, a mãe do garoto batia sem parar na porta de seu quarto, ele acordara em um pulo, e logo chegara à mesa da cozinha, o café já estava servido e a empolgação de sua mãe tomava conta da casa, menos o seu pai, continuava com a cara de poucos amigos e parecia que havia chorado durante toda a noite. Frutas e café, o garoto sentira que as próximas semanas seriam apertadas, tomou seu café, comeu uma fruta e foi até seu quarto, ao pegar a bola de cristal viu a moça de branco dormindo, mas o mar dentro da bola estava revolto, e a moça deitada na praia parecia em um sonho tranqüilo. Saiu correndo para ver o mar, gritou lá de fora para seu pai, e disse que naquela manhã o ajudaria com a pescaria. Ele chegou correndo no barco de seu pai que aparentava não estar com muita vontade ao carregar a rede. Saíram ao mar, o garoto muito entusiasmado, e seu pai com ar carrancudo... já não eram mais visíveis ao ponto da beira da praia...
Ao início da tarde estavam de volta, o garoto aparentava estar muito feliz, e seu pai também, o barco estava transbordando de tantos peixes, o mar fora generoso naquele dia. O menino gritava estridentemente chamando sua mãe, queria contá-la que aquele dia teria um sabor especial...
O almoço fora feito a partir das tainhas pescadas, na brasa, estalavam cada gota de gordura que caía, o apetite aumentava a cada instante, todos estavam à mesa conversando, a mãe, a irmã, o cunhado e seus pais, enquanto o pequeno e seu pai preparavam o almoço e os peixes para vender na feira do reino... tainhas assadas, e a mesa se transformou em um recanto de paz e silêncio, todos se deliciavam com o peixe delicioso que o mar os presenteara.
Antes de partir para a feira, o garoto passou em seu quarto e espiou a moça de branco dentro da bola de cristal, o mar em seu interior estava calmo e ela apreciava as ondas, suspirava e irradiava um brilho quente em seus olhos, ele conversou um pouco sobre o olhar dela e avisou que voltaria mais tarde, ela sorriu e o desejou uma boa venda de peixes na feira.
Ao caminho da feira com seu pai, o menino pensou por um instante, como ela me desejou boas vendas, se não lhe contei dos peixes... na feira os clientes, apreciavam as tainhas que ali estavam expostas, muito grandes e gordas, fresquinhas com um aspecto mágico. O garoto vendia enquanto seu pai conversava com os outros feirantes, trocava peixes por outros alimentos e temperos nobres que vinham de muito, muito longe, mas que eram muito apreciados pelo rei.
A noite chegara e a feira havia terminado, eles voltavam para a casa satisfeitos, com sacos cheios de alimentos, e com os bolsos lotados de moedas reais, as moedas de ouro pesavam demais, mas seu peso não espantara tamanha alegria de toda a família na chegada, ainda estavam todos lá, combinando o casamento da filha mais velha, enquanto pai e filho descarregavam a magia que aquele sol trouxera naquele dia.
Ao início da tarde estavam de volta, o garoto aparentava estar muito feliz, e seu pai também, o barco estava transbordando de tantos peixes, o mar fora generoso naquele dia. O menino gritava estridentemente chamando sua mãe, queria contá-la que aquele dia teria um sabor especial...
O almoço fora feito a partir das tainhas pescadas, na brasa, estalavam cada gota de gordura que caía, o apetite aumentava a cada instante, todos estavam à mesa conversando, a mãe, a irmã, o cunhado e seus pais, enquanto o pequeno e seu pai preparavam o almoço e os peixes para vender na feira do reino... tainhas assadas, e a mesa se transformou em um recanto de paz e silêncio, todos se deliciavam com o peixe delicioso que o mar os presenteara.
Antes de partir para a feira, o garoto passou em seu quarto e espiou a moça de branco dentro da bola de cristal, o mar em seu interior estava calmo e ela apreciava as ondas, suspirava e irradiava um brilho quente em seus olhos, ele conversou um pouco sobre o olhar dela e avisou que voltaria mais tarde, ela sorriu e o desejou uma boa venda de peixes na feira.
Ao caminho da feira com seu pai, o menino pensou por um instante, como ela me desejou boas vendas, se não lhe contei dos peixes... na feira os clientes, apreciavam as tainhas que ali estavam expostas, muito grandes e gordas, fresquinhas com um aspecto mágico. O garoto vendia enquanto seu pai conversava com os outros feirantes, trocava peixes por outros alimentos e temperos nobres que vinham de muito, muito longe, mas que eram muito apreciados pelo rei.
A noite chegara e a feira havia terminado, eles voltavam para a casa satisfeitos, com sacos cheios de alimentos, e com os bolsos lotados de moedas reais, as moedas de ouro pesavam demais, mas seu peso não espantara tamanha alegria de toda a família na chegada, ainda estavam todos lá, combinando o casamento da filha mais velha, enquanto pai e filho descarregavam a magia que aquele sol trouxera naquele dia.
sábado, 30 de agosto de 2008
Pequeno mundo pequeno
Todo estrangeiro é um estranho em uma terra que não é a sua. Terra mais estranha ainda para quem está chegando ou só de passagem. Se cada pessoa contém um pequeno universo interior, um Reino de estranhos carrega em si diversos mundos e pessoas, cada um com suas luzes e sombras, suas espadas e cruzes em uma longa jornada.
Prodigal – um estrangeiro que causa estranheza por onde passa -, diante do corpo sem vida de Lord Drago, seu amo e Senhor, não sentiu-se mais sozinho no mundo, pois a solidão tem sido a sua eterna namorada e companheira de viagem desde sempre. Naquele instante de dor um vácuo contornou seu corpo e o silêncio ficou agachado ao seu redor...
Mesmo Lord Drago tendo sido quem o criou, quando sua mãe Alma morrera sem ninguém esperar e sua tia Vida enlouqueceu sem explicação, aquele cavaleiro era para o fiel escudeiro uma grande incógnita e um quase desconhecido. Imenso, em sua armadura negra e alma dura de tanto guerrear pela bandeira dos outros, vivia o Lord envolto em mil e um segredos e medos. Frio e distante, às vezes, como uma muralha intransponível, noutras cândido e fraterno como um peão, o jovem pouco sabia da vida de seu Senhor, apenas que todo cavaleiro do dragão negro – e já foram muitos desde o início dos tempos – deveria zelar pela Irmandade do Vento; um grupo de cavaleiros que combatia a temível Ordem do Tempo... Entre as poucas coisas que Drago lhe contara estava o fato de que todo cavaleiro da Irmandade do Vento precisa, antes de sair em longa jornada, escolher o fiel escudeiro, para que ao morrer em batalha este o substitua e continue o mito de sua imortalidade. Era o pacto feito entre amo e servo, desde o início dos tempos da irmandade... Dessa forma o escudeiro era iniciado n'A grande verdade, sabendo que um dia O Livro do Destino teria que ser por ele guardado com a própria vida.
Prodigal sabia que Drago era o sétimo cavaleiro da irmandade do Vento, e que quando ele morresse deveria procurar um dos seis restantes, que conheciam cada um mais seis nomes de cavaleiros, e estes mais seis e assim por diante, na grande teia de aranha do brasão daquela comunidade secreta, que se reunia vez que outra num local remoto, para escrever enigmáticos poemas em forma de criptogramas, que só os integrantes d'A Grande Teia podiam entender... Os seis cavaleiros eram: Capablanca, Luminet, Morphy, Binet, Steinitz e Groot. Tinham outros, como Sessa, Philidor, Shannon, Damiano, Filguth, Polgar e Fine, mas esses o escudeiro - um iniciado nos segredos da Grande Biblioteca Universal, do mago Borges, como Lord Drago também se referia à irmandade do Vento - desconhecia a existência. A cada sete cavaleiros estes só conheciam um degrau além do que estavam, e o outro assim por diante, de forma a manter aquela pequena legião de guerreiros longe das perseguições da Ordem do Tempo, que como o próprio nome demonstrava, desejava controlar a qualquer custo o tempo e o vento... Esta ordem tinha como insígnia uma imensa ampulheta com um gigante de um olho só aprisionado em seu interior.
O escudeiro ajoelhado ao lado do corpo de Drago – pensando em quem deveria escolher para seu fiel escudeiro - viu uma pequena concha flutuando ao redor. Ao pegá-la com a mão esquerda e levá-la ao ouvido, por conta de um estranho ruído, descobriu que a tal concha parecia conter em seu interior o som de uma diminuta gruta escura e funda em que sua mãe Alma dizia que seu verdadeiro pai Sem Nome tinha se perdido para sempre, num pequeno labirinto construído por ele mesmo e que de lá jamais se encontrara tampouco retornaria ao mundo dos vivos... Se aquela concha podia carregar dentro de si um pequeno pedaço de mar, Prodigal passou a acreditar piamente que aquele Reino de estranhos poderia estar encerrado dentro de uma pequena bola de cristal, como que se o particular pudesse conter em si o universal...
Prodigal – um estrangeiro que causa estranheza por onde passa -, diante do corpo sem vida de Lord Drago, seu amo e Senhor, não sentiu-se mais sozinho no mundo, pois a solidão tem sido a sua eterna namorada e companheira de viagem desde sempre. Naquele instante de dor um vácuo contornou seu corpo e o silêncio ficou agachado ao seu redor...
Mesmo Lord Drago tendo sido quem o criou, quando sua mãe Alma morrera sem ninguém esperar e sua tia Vida enlouqueceu sem explicação, aquele cavaleiro era para o fiel escudeiro uma grande incógnita e um quase desconhecido. Imenso, em sua armadura negra e alma dura de tanto guerrear pela bandeira dos outros, vivia o Lord envolto em mil e um segredos e medos. Frio e distante, às vezes, como uma muralha intransponível, noutras cândido e fraterno como um peão, o jovem pouco sabia da vida de seu Senhor, apenas que todo cavaleiro do dragão negro – e já foram muitos desde o início dos tempos – deveria zelar pela Irmandade do Vento; um grupo de cavaleiros que combatia a temível Ordem do Tempo... Entre as poucas coisas que Drago lhe contara estava o fato de que todo cavaleiro da Irmandade do Vento precisa, antes de sair em longa jornada, escolher o fiel escudeiro, para que ao morrer em batalha este o substitua e continue o mito de sua imortalidade. Era o pacto feito entre amo e servo, desde o início dos tempos da irmandade... Dessa forma o escudeiro era iniciado n'A grande verdade, sabendo que um dia O Livro do Destino teria que ser por ele guardado com a própria vida.
Prodigal sabia que Drago era o sétimo cavaleiro da irmandade do Vento, e que quando ele morresse deveria procurar um dos seis restantes, que conheciam cada um mais seis nomes de cavaleiros, e estes mais seis e assim por diante, na grande teia de aranha do brasão daquela comunidade secreta, que se reunia vez que outra num local remoto, para escrever enigmáticos poemas em forma de criptogramas, que só os integrantes d'A Grande Teia podiam entender... Os seis cavaleiros eram: Capablanca, Luminet, Morphy, Binet, Steinitz e Groot. Tinham outros, como Sessa, Philidor, Shannon, Damiano, Filguth, Polgar e Fine, mas esses o escudeiro - um iniciado nos segredos da Grande Biblioteca Universal, do mago Borges, como Lord Drago também se referia à irmandade do Vento - desconhecia a existência. A cada sete cavaleiros estes só conheciam um degrau além do que estavam, e o outro assim por diante, de forma a manter aquela pequena legião de guerreiros longe das perseguições da Ordem do Tempo, que como o próprio nome demonstrava, desejava controlar a qualquer custo o tempo e o vento... Esta ordem tinha como insígnia uma imensa ampulheta com um gigante de um olho só aprisionado em seu interior.
O escudeiro ajoelhado ao lado do corpo de Drago – pensando em quem deveria escolher para seu fiel escudeiro - viu uma pequena concha flutuando ao redor. Ao pegá-la com a mão esquerda e levá-la ao ouvido, por conta de um estranho ruído, descobriu que a tal concha parecia conter em seu interior o som de uma diminuta gruta escura e funda em que sua mãe Alma dizia que seu verdadeiro pai Sem Nome tinha se perdido para sempre, num pequeno labirinto construído por ele mesmo e que de lá jamais se encontrara tampouco retornaria ao mundo dos vivos... Se aquela concha podia carregar dentro de si um pequeno pedaço de mar, Prodigal passou a acreditar piamente que aquele Reino de estranhos poderia estar encerrado dentro de uma pequena bola de cristal, como que se o particular pudesse conter em si o universal...
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
The darkest things

Could you imagine how mysterious this kingdom could be? Princess, queens, soldiers, thiefs and enigmatic girls...this story is about don't know nothing about what will happen.
Besides the Castle, some kind of building very strange was contructed at that small village. A kind of vault or something like that all underneath the soil. But when people come inside, can feel like they were at your own home. Big walls, doors, rooms. All that you can find in a house.
But in these walls were written some kinds of drawing...pieces of flesh, dead bodies and stuff like that.
"I have to run out of this place". She thought. Then she ran up to the stairs and finnally found a way out of that mysterious place. That's when she met that Soldier that came to confuse her mind and be the one to find out what was really hapenning in that place.
Who is behind all these misteries? The queen? The little thief? Sidelar?
Who knows? Who will know?
Besides the Castle, some kind of building very strange was contructed at that small village. A kind of vault or something like that all underneath the soil. But when people come inside, can feel like they were at your own home. Big walls, doors, rooms. All that you can find in a house.
But in these walls were written some kinds of drawing...pieces of flesh, dead bodies and stuff like that.
"I have to run out of this place". She thought. Then she ran up to the stairs and finnally found a way out of that mysterious place. That's when she met that Soldier that came to confuse her mind and be the one to find out what was really hapenning in that place.
Who is behind all these misteries? The queen? The little thief? Sidelar?
Who knows? Who will know?
sábado, 23 de agosto de 2008
O pequeno ladrão de frutas e sua bola de cristal

Lá estava ele, e a menina a espreita chamava o menino rapidamente, ao entrar pela passagem o menino sentiu um enorme frio na barriga, sentia que aquela noite seria decisiva e só restava libertar a moça linda e de branco que estava presa na bola de cristal, não havia nenhum sinal de pessoas por aquelas partes do Castelo, e ele sentiu-se seguro quando abriu a porta do aposento, a bola quietinha em um canto, e a moça dormia, ele pegou a bola e a colocou dentro de um saco, como se estivesse roubando alguma coisa, olhou para os lados, observou bem aquele lugar e pensou que jamais voltaria a pisar dentro do Castelo e não veria coisa mais bela que aquele quarto. Ao sair do Castelo sua amiga o desejou boa sorte e ele foi embora feliz e com medo.
No caminho do bosque a noite estava tranqüila, as folhas das árvores pareciam cantar com o vento que soprava, no meio do caminho escutou um bocejo vindo de dentro da bola, sorriu e mesmo sabendo que a linda moça acordara continuou andando. Após alguns momentos escutou ela resmungar:
- Onde será que estou? Será que me acharam? Ó meus céus e meu mar, está tudo escuro e balançando! O que será de mim?
Ele parou, e abriu o saco com um sorriso enorme nos dentes tranqüilizando a moça e dizendo que ela estava a salvo, que não demoraria muito para que chegassem em sua casa, mas ela deveria ficar quieta e calma, pois sua família não poderia vê-la e nem desconfiar de algo errado com ele, porque ele já havia aprontado demais, e mais uma vez, sua mãe ficaria muito chateada.
Chegando perto de sua casa, o menino recolheu a bola para dentro do saco, e ao entrar em casa percebeu que algo não estava muito bem. Estavam todos reunidos na cozinha e cochichavam de modo que quase nada se escutava na entrada, seu pai, sua mãe, sua irmã mais velha e um rapaz, o qual era vizinho deles, todos sentados em volta da mesa, o menino passou depressa para o seu quarto, largou o saco embaixo de sua cama e pediu para a jovem esperar. Ao entrar na cozinha a conversa cessou, e ele perguntou o que ocorrera, sua mãe o pegou pela mão e o colocou em seu colo, explicou que o vizinho havia pedido sua irmã em casamento e que em breve suas vidas seriam melhores. O menino ficou um tanto surpreso com a notícia e felicitou sua irmã pelo pedido e desejou boa sorte aos noivos, seu pai estava com uma cara não muito feliz, e era notável sua má vontade em aceitar o pedido da mão da filha em casamento, sua mãe estava super empolgada e nos olhos da irmã, lágrimas de felicidade escorriam sem parar.
Sua mãe o mandara para o quarto, já era tarde e no dia seguinte começariam os preparos para o casamento de sua irmã, o menino foi mais que rápido, trancou a porta e pegou o saco com a bola de cristal, contou para a moça de branco que sua irmã se casaria em breve e que a felicidade tomara conta da casa, a moça pareceu sorridente e logo o questionou:
- Quando vou sair daqui? De dentro desta bola de cristal?
Ele não soube o que dizer, há alguns dias atrás vendera o pó mágico que pegou da sala do Mago, só havia um pouco que tinha guardado dentro de uma caneta que estava escondida.
Ela se lamenta:
- Estou há muitos anos aqui dentro, o cheiro de mar que sinto está me revoltando, aqui eu não como, não tenho vontade de me alimentar, apenas penso, canto e espero o dia em que virá alguém me libertar.
Ele explicou que já era tarde e tinha que dormir, pediu para que ficasse calma, pois era muito difícil para ele, queria libertá-la, mas ainda não sabia como. Desejou-lhe boa noite e foi dormir.
No caminho do bosque a noite estava tranqüila, as folhas das árvores pareciam cantar com o vento que soprava, no meio do caminho escutou um bocejo vindo de dentro da bola, sorriu e mesmo sabendo que a linda moça acordara continuou andando. Após alguns momentos escutou ela resmungar:
- Onde será que estou? Será que me acharam? Ó meus céus e meu mar, está tudo escuro e balançando! O que será de mim?
Ele parou, e abriu o saco com um sorriso enorme nos dentes tranqüilizando a moça e dizendo que ela estava a salvo, que não demoraria muito para que chegassem em sua casa, mas ela deveria ficar quieta e calma, pois sua família não poderia vê-la e nem desconfiar de algo errado com ele, porque ele já havia aprontado demais, e mais uma vez, sua mãe ficaria muito chateada.
Chegando perto de sua casa, o menino recolheu a bola para dentro do saco, e ao entrar em casa percebeu que algo não estava muito bem. Estavam todos reunidos na cozinha e cochichavam de modo que quase nada se escutava na entrada, seu pai, sua mãe, sua irmã mais velha e um rapaz, o qual era vizinho deles, todos sentados em volta da mesa, o menino passou depressa para o seu quarto, largou o saco embaixo de sua cama e pediu para a jovem esperar. Ao entrar na cozinha a conversa cessou, e ele perguntou o que ocorrera, sua mãe o pegou pela mão e o colocou em seu colo, explicou que o vizinho havia pedido sua irmã em casamento e que em breve suas vidas seriam melhores. O menino ficou um tanto surpreso com a notícia e felicitou sua irmã pelo pedido e desejou boa sorte aos noivos, seu pai estava com uma cara não muito feliz, e era notável sua má vontade em aceitar o pedido da mão da filha em casamento, sua mãe estava super empolgada e nos olhos da irmã, lágrimas de felicidade escorriam sem parar.
Sua mãe o mandara para o quarto, já era tarde e no dia seguinte começariam os preparos para o casamento de sua irmã, o menino foi mais que rápido, trancou a porta e pegou o saco com a bola de cristal, contou para a moça de branco que sua irmã se casaria em breve e que a felicidade tomara conta da casa, a moça pareceu sorridente e logo o questionou:
- Quando vou sair daqui? De dentro desta bola de cristal?
Ele não soube o que dizer, há alguns dias atrás vendera o pó mágico que pegou da sala do Mago, só havia um pouco que tinha guardado dentro de uma caneta que estava escondida.
Ela se lamenta:
- Estou há muitos anos aqui dentro, o cheiro de mar que sinto está me revoltando, aqui eu não como, não tenho vontade de me alimentar, apenas penso, canto e espero o dia em que virá alguém me libertar.
Ele explicou que já era tarde e tinha que dormir, pediu para que ficasse calma, pois era muito difícil para ele, queria libertá-la, mas ainda não sabia como. Desejou-lhe boa noite e foi dormir.
Observação: Imagem acima, ilustração de Jouber D. Cunha, feira especialmente para o RPG.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
O menino do lago
No Azul Profundo, a alma do cavaleiro pouco a pouco foi mergulhando...Na beira do lago interior, o mundo começou a ficar gelado demais, espelhado naquela vida sem sentido. Dentro do Azul Profundo havia um sono igualmente íntimo, intenso, atroz... Naquelas águas frias, o corpo daquele cavaleiro imenso boiava num mar celestial...
Próximo ao bosque, o escudeiro do Dragão Negro esperava que aquela escuridão total cessasse para que ele pudesse reencontrar seu amo e Senhor. Criado por Lord Drago, o jovem Prodigal nunca conhecera seus verdadeiros pais. Desde menino fora ensinado a ser um leal servo do cavaleiro imortal. Seu verdadeiro nome desconhecia. Prodigal era um nome de guerra, como outro qualquer. Seu dever era sempre manter a chama dos dois escudos no céu, arremessados pela catapulta secreta, para que os valentes de qualquer reino temessem a chegada de Lord Drago.
Era noite dupla, no tempo e no espaço. Noite dupla nas horas e no céu. O eclipse era sempre considerado um mau presságio para os homens da realeza e também da plebe rude. Mas ele, que fora educado pelo cavaleiro do dragão negro, conhecia algumas das diversas coisas entre o céu e a terra, a partir das leituras feitas por Drago de um misterioso livro, como se fosse um oráculo: O Livro do Destino. Encontrado na tumba de uma múmia, o manuscrito muito antigo continha algumas perguntas e possíveis respostas. Seu uso dependia do bom jogo dos três dados mágicos que acompanhavam o texto milenar. Ao pensar com força em uma pergunta ou desejo, deveria o leitor jogar por sete vezes tais cubos mágicos, anotando seus resultados em uma árvore próxima, na areia, em qualquer lugar. Para cada combinação de arremesso de dados, se fosse par representava um sol, se fosse ímpar uma lua.
Quando seu Senhor jogou pela última vez os dados mágicos, a resposta à sua pergunta secreta teve o resultado de três sóis e quatro luas... A visão do semblante de Lord Drago, após ouvir do oráculo seu destino impressionou muito Prodigal. Nesse instante tinham passados exatos três sóis e três luas no céu. A quarta lua foi justamente a noite dupla encobrindo o Reino de estranhos de um jeito sem igual...
O jovem então, temendo pelo destino do cavaleiro, fez que seu cavalo e a montaria reserva de seu Senhor puxassem a catapulta até as margens de um estranho lago, formado de quando em vez pela força das águas de uma misteriosa Nuvem Passageira que cobre o céu do Reino de estranhos, toda vez que naquele curioso local há a programação de alguma festividade. Toda vez que tais festas religiosas ou pagãs acontecem por ali, cães e lobos surgem do nada, entre as pessoas, trazendo mau agouro aos habitantes da região...
Prodigal, na escuridão daquele tempo, foi então seguindo a margem do lago interior, vendo ao longe o brilho de um pequeno farol. Quando se aproximou da luminosidade, tratava-se somente de uma pequena tocha, cravada no solo, enquanto uma mulher de beleza rara, algo sobrenatural, emergia das águas, com seu cantil cheio, caminhando em direção ao corpo desfalecido de seu Senhor. Reconheceu-o, apesar da escuridão, por conta de uma pedra vermelha em seu peito, o famoso diamante Coração do Dragão, que o cavaleiro negro ostentava com orgulho e bravura a cada batalha vencida.
Insônia era o nome dado a mulher que trazia em seu cantil a água das profundezas do lago, para tentar salvar o guerreiro ferido de morte de seu Destino atroz.
Prodigal percebeu as pernas alvejadas de Lord Drago, mas o que de fato o matou foi um pequeno e afiado dardo, cravado bem fundo no coração do dragão. O jovem, ao primeiro instante não reconheceu a mulher, mas esta lembrou-se do menino do lago no exato segundo que o viu. Alguém por quem ela tinha grande afeição, diversos sóis e luas atrás, quando ambos eram muito jovens. Insônia - que quando menina desconhecia seus poderes, herdados das mulheres dos bosques - pediu num passado distante, quando da primeira vez que conheceu o menino, que este jamais envelhecesse até que ela pudesse reencontrá-lo. Este dia, na lei do eterno retorno chegou, e era para ela hoje, agora, já... Aquele pacto com as águas estava cumprido, e de agora em diante a juventude de Prodigal não seria mais a mesma... De volta à fonte da juventude, o jovem que jamais envelhecia teria que guardar em seu cantil muita água daquele lago se não quisesse envelhecer de uma vez só todo o tempo que lhe fora poupado pelo próprio tempo, por conta da afeição, do encanto e do encantamento daquela bela mulher...
Quando o jovem pisou de novo no lago, sem saber, quebrara o encanto do tempo. Mas outro encanto entre ele e Insônia mal estava para começar... Nenhum dos dois dissera uma palavra sequer. Nos olhos de cada um aquela sensação de déjá vu estava impregnada no ar, em seu entorno a bailar... Entre os dois, apenas o lago e o corpo sem vida de Lord Drago. A volta gradual do brilho da Lua trouxe de novo a todos os habitantes do Reino de estranhos o falso encantamento, e a certeza a Prodigal e Insônia de que tanto o real como o imaginário só o lago podia conceder ou retirar, velar ou desvendar...
Observação: Imagem acima, criada especialmente para o RPG, por Jouber D. Cunha.
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